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Ainda com relação à área interna, especialmente as salas
de aula, embora a maioria das instituições visitadas envolva
os alunos na ambientação da classe, sobretudo com a colo-
cação de seus trabalhos/atividades nas paredes, em algumas
situações a decoração estereotipada (personagens de dese-
nhos animados, trabalhos elaborados por adultos, etc.) che-
ga a ser excessiva, inibindo a necessária apropriação do es-
paço pelas crianças.
Em termos de ocupação efetiva das áreas livres, nas es-
colas analisadas os espaços sociopetalados (ou seja, aque-
les que atraem as pessoas, tornando-se pontos de conver-
gência de usuários e, portanto, promovendo sua própria ocu-
pação) relacionaram-se a locais sombreados (pátios abertos
e sob árvores) e à presença de equipamento/mobiliário (be-
bedouro, brinquedos e bancos). Por outro lado, entre os es-
paços sociofugidios (locais dos quais os ocupantes em po-
tencial se afastam) estão: corredores estreitos e escuros, am-
bientes com insolação direta (o que os torna excessivamente
quentes) e locais com grande controle/vigilância institucional
(como a diretoria).
Analisando o uso em função das características dos ocu-
pantes verificou-se que:
· As crianças maiores (4 a 7 anos) utilizam ao máximo o
espaço disponível, enquanto as menores (2 a 4 anos) man-
tém-se ao alcance, ao menos visual, de um adulto.
· O espaço exigido por atividades estáticas (que não
envolvem muita movimentação) abrange pouco mais que o
círculo definido pelos movimentos de tórax e braços do(s)
envolvido(s), e ocorrem, preferencialmente, em áreas abertas
sombreadas.
· Jogos dinâmicos e populares, que usam bola e envol-
vem muitas crianças (como o futebol), acontecem, mesmo
não existindo locais apropriados para recebê-los.
· Quadras esportivas são valorizadas e muito disputa-
das, eventualmente podendo tornar-se fonte de comporta-
mento não amistoso entre diversos grupos de ocupantes.
· Em brincadeiras como esconde-esconde, todos os ele-
mentos volumosos são aproveitados pelas crianças (tambo-
res de lixo, plantas, vasos, murais) precisando ser locados e
fixados com cuidado a fim de evitarem-se acidentes.
· Nas áreas livres os maiores atrativos são as árvores
(sobretudo se for possível subir nelas sem perigo), os locais
para brincar (especialmente playgrounds e caixas de areia) e
onde quer que existam animais como pássaros, tartarugas e
pequenos mamíferos (ratos, coelhos, gatos, cachorros), pon-
tos focais da atenção das crianças menores.
Com a palavra os usuários
As constatações da análise técnica (anterior)
transparecem na consulta aos usuários adultos das escolas
do estudo de caso (total de 279 pessoas, sendo 145 pais/
responsáveis, 85 professores/assistentes e 49 funcionários).
Quando solicitado aos mesmos identificar, entre 30 itens apre-
sentados, os três que consideravam prioritários para a defini-
ção de um ambiente escolar adequado à criança, as respostas
evidenciaram: aspecto estético (citado por 57,3% dos
respondentes), sala de aula (49,1%), localização (45,2%), área
livre (44,1%), conforto (41,6%), dimensão dos cômodos
(34,4%), tamanho (27,6%) e segurança (14%).
Complementando tal informação, ao expressarem-se de
modo livre sobre o papel do ambiente escolar no desenvolvi-
mento infantil, o discurso de pais e professores ressaltou sua
importância em termos de: socialização (apontada por 27,6%
dos mesmos), disponibilidade de mais espaço em
complementação ao existente na moradia (22,7%), consolida-
ção de hábitos/rotinas/limites (16,1%), mais oportunidades
para brincar (14,3%), aumento da autonomia individual (12,6%)
e do aprendizado (10,9%), conhecimento de pessoas/lugares
diferentes dos familiares (10,9%), liberdade (6,5%), possibili-
dade de maior contato com a natureza (6,5%).
É interessante notar que os homens deram maior ênfase
aos aspectos socialização, conhecimento de outras pessoas/
lugares e aumento da autonomia individual, como fatores de
desenvolvimento, enquanto as mulheres fizeram mais refe-
rência ao aprendizado, à disponibilidade de maior quantidade
de espaço e à facilitação do contato com a natureza. As pro-
fessoras (todas do sexo feminino – a figura masculina é qua-
se inexistente nesse nível de escolarização) foram as únicas a
citar o favorecimento da psicomotricidade infantil.
A questão do espaço físico assume ainda maior impor-
tância ao verificar-se que cerca de 60% das crianças habita
em apartamentos, de maneira que o tempo passado no colé-
gio e as condições do ambiente disponível muitas vezes apa-
rentam tornar-se uma espécie de “válvula-de-escape” na sua
vida cotidiana, sendo o único local onde lhes é possível ficar
ao ar livre, movimentar-se mais, pegar em areia, sujar-se, as-
sistir plantas crescerem.
Na análise desses aspectos em função de cada escola do
estudo de caso, verificou-se que nem sempre a necessidade
de espaço e contato com a natureza correspondeu à maior ou
menor disponibilidade de ambientes naturais naquela escola
frente as demais, e sim a uma idealização daquele local. Os
pais, principalmente, aparentaram “perceber” no ambiente
escolar mais atributos do que os nele realmente encontrados.
Nesse sentido, eles referiram-se a “jardim com arbustos e
flores” ao falar de locais onde há apenas alguns vasos com
plantas, denominaram de “piscina” um pequeno tanque, ou
“árvore” uma palmeira desenvolvida, mas pouco mais alta
que uma criança.
Além disso, os questionários aplicados aos adultos per-
mitiram identificar vários elementos do ambiente físico das
escolas considerados “problema”, cuja ênfase recaiu nas
deficiências relativas ao conforto ambiental, em termos de
temperatura, ventilação, iluminação e controle de ruídos, so-
bretudo nas salas de aula.
Por sua vez, a opinião das crianças foi coletada a partir
do desenho da sala-de-aula e da escola-como-um-todo (ver a
Figura C1, no Apêndice C – Alguns desenhos-temáticos das
escolas elaborados pelas crianças), acompanhados por des-
crição do trabalho realizado e entrevista. Participaram da ativi-
dade 74 crianças em fase de alfabetização (o último estágio da
educação infantil), cuja idade variou entre cinco e sete anos.