Cuidado Ambiental em Tempos de Sustentabilidade: Relação Entre Compromisso Pró-Ecológico e Orientação de Futuro
Dossiê: PSICOLOGIA AMBIENTAL
Comportamento P-Ambiental e Sustentabilidade
Psico
v. 45, n. 3, pp. 387-394, jul.-set. 2014
Cuidado Ambiental em Tempos de Sustentabilidade:
Relação Entre Compromisso Pró-Ecológico e
Orientação de Futuro
Raquel F. Diniz
José Q. Pinheiro
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Natal, RN, Brasil
RESUMO
A fim de explorar algumas das dimensões psicológicas que fazem parte de estilos de vida sustentáveis, no presente
estudo foram investigadas relações entre indicadores de compromisso pró-ecológico (escala de Ambientalismos
Ecocêntrico e Antropocêntrico) e de orientação temporal (escala de Consideração de Consequências Futuras) e suas
associações com o relato espontâneo de práticas de cuidado ambiental. Participaram 380 estudantes universitários, a
maioria do sexo feminino (77%), e com média de idade de 22 anos (DP = 3,66). Os resultados foram coerentes com
estudos anteriores, ainda que com índices estatísticos modestos. Foi corroborada a associação entre compromisso
pró-ecológico, mais fortemente o ecocentrismo, e a orientação temporal de futuro. Houve associações evidentes entre
o antropocentrismo, a apatia ambiental e o imediatismo, e a ausência de relatos de práticas de cuidado ambiental. São
discutidas as implicações e limitações do estudo, assim como são feitos apontamentos para estudos futuros.
Palavras-chave: Psicologia ambiental; atitudes; desenvolvimento sustentável; perspectiva de tempo.
ABSTRACT
Environmental Care in Times of Sustainability: The Relationship Between Pro-Environmental Commitment and Future
Orientation
In order to explore some of the psychological dimensions that are part of a sustainable lifestyle, in the present research
were investigated relationships between indicators of pro-ecological commitment (Ecocentric and Anthropocentric
Environmentalism scales) and temporal orientation (Consideration of Future Consequences scale), and their
associations with self-reported practices of environmental care. 380 college students participated, most were female
(77%), with a mean age of 22 years old (SD = 3.66). The results were consistent with previous studies, albeit with
modest statistical indices. The association between pro-ecological commitment, stronger in case of ecocentrism, and
future time orientation was corroborated. There were clear associations between anthropocentrism, environmental
apathy and immediacy, and the absence of reports of environmental care practices. The implications and limitations
of the study are discussed, as well are made appointments for future researches.
Keywords: Environmental psychology; attitudes; sustainable development; time perspective.
RESUMEN
Cuidado Ambiental en Tiempos de Sostenibilidad: Relación Entre Compromiso Proecológico y Orientación de Futuro
Con el fin de explorar algunas de las dimensiones psicológicas que forman parte de los estilos de vida sostenibles, en ese
trabajo fueron investigadas las relaciones entre indicadores del compromiso pro-ecológico (escala de Ambientalismos
Ecocéntrico y Antropocéntrico) y de la orientación temporal (escala de Consideración de Consecuencias Futuras) y
sus asociaciones con el relato espontáneo de prácticas de cuidado ambiental. Participaron 380 estudiantes de grado,
la mayoría del sexo femenino (77%), y con media de edad de 22 años (DP = 3,66). Los resultados fueron coherentes
con los de trabajos anteriores, aunque con índices estadísticos modestos. Fue corroborada la asociación entre el
compromiso pro-ecológico, más fuerte con el ecocentrismo, y la orientación temporal de futuro. Hubo asociaciones
evidentes entre el antropocentrismo, la apatía ambiental y el inmediatismo, y la ausencia de relatos de prácticas de
cuidado con el medio ambiente. Son discutidas las implicaciones y limitaciones de la investigación, así como fueron
hechos apuntes para futuras investigaciones.
Palabras clave: Psicología ambiental; actitudes; desarrollo sostenible; perspectiva de tiempo.
A matéria publicada neste periódico é licenciada sob forma de uma
Licença Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional.
http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
388
INTRODUÇÃO
O interesse pela questão ambiental vem se
consolidando ao longo das últimas quatro décadas em
diversos âmbitos, tendo adquirido novos contornos a
partir da emergência do conceito de sustentabilidade.
Definida como o modelo de desenvolvimento que
“atende às necessidades do presente sem comprometer
a possibilidade das gerações futuras atenderem as
suas próprias necessidades” (Comissão Mundial
sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, 1991,
p. 46), a partir dela se depreende o desafio para as
gerações atuais em adotar estilos de vida que prezem
pela manutenção dos recursos em função, também,
do bem-estar das próximas gerações. Assim, a
sustentabilidade demanda a ampliação do foco dado à
compreensão das interações humano-ambientais, visto
que contempla uma dimensão temporal expressa no
princípio da solidariedade intergeracional, que enfatiza
a importância da adoção de um estilo de vida austero e
assegura a igualdade entre as gerações em sua relação
com o sistema natural (Pol, 2002).
Dentre as diversas disciplinas que se dedicam ao
estudo de tais interações está a Psicologia Ambiental.
Sua interface com a sustentabilidade tem sido discutida
por diversos autores que afirmam a importância de
sua contribuição para a construção do conhecimento
sobre as relações pessoa-ambiente. Tal conhecimento
pode fornecer bases para intervenções e mudanças
comportamentais mais consistentes e duradouras,
promovendo estilos de vida orientados por princípios
alternativos ao modelo de desenvolvimento vigente
nas sociedades ocidentais e de economia capitalista
(Corral-Verdugo, 2010; García-Mira & Marcote, 2009;
Kazdin, 2009).
No âmbito da pesquisa psicológica, os estilos de
vida sustentáveis foram definidos por Corral-Verdugo
e Pinheiro (2004) como “conjunto de ações efetivas,
deliberadas e antecipadas que resultam na preservação
dos recursos naturais, incluindo a integridade das
espécies animais e vegetais, assim como o bem estar
individual e social das gerações atuais e futuras” (p. 10).
Trata-se de um conceito multidimensional, que
comporta diversas dimensões psicológicas que podem
estar associadas entre si.
A fim de mais bem compreender e delimitar os
avanços das investigações sobre tais dimensões no
âmbito da psicologia, Corral-Verdugo (2010) as
reuniu em três eixos, quais sejam: variáveis disposicio-
nais (antecedentes), comportamento, e repercussões
psicológicas (consequentes). No presente estudo
são abordadas as relações entre duas variáveis
disposicionais – o compromisso pró-ecológico e a
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Diniz, R. F., Pinheiro, J. Q.
orientação temporal de futuro – e a associação das
mesmas com relatos de práticas de cuidado ambiental
(dimensão comportamental).
COMPROMISSO PRÓ-ECOLÓGICO
As investigações sobre os determinantes dos
comportamentos de cuidado ambiental, em geral,
abordam associações e relações entre diversas variáveis
disposicionais – como crenças, visões de mundo,
normas, atitudes, valores – que embasam modelos
explicativos. Tais investigações têm sinalizado
sistematicamente o caráter preditivo ou mediador de
tais variáveis para o comportamento (e.g., Corral-
Verdugo, 2010; Dietz, Fitzgerald, & Shwom, 2005;
Groot & Steg, 2010; Pato & Tamayo, 2006; Pinheiro
& Pinheiro, 2007).
A fim de sintetizar o entendimento sobre a postura
favorável ao meio ambiente, Gurgel e Pinheiro (2011)
nomearam compromisso pró-ecológico (CPE) “a
relação cognitiva e/ou afetiva, de caráter positivo, que
as pessoas estabelecem com o meio ambiente ou parte
do mesmo, responsabilizando-se e interessando-se por
ele” (p. 159). Tal definição resulta também do interesse
dos autores em lançar mão de uma linguagem mais
acessível às diferentes áreas afins, como a educação
ambiental, visto tratar-se de uma nomenclatura mais
clara e próxima à linguagem comum.
No âmbito do conhecimento sobre o compromisso
pró-ecológico estão as noções de ecocentrismo e
antropocentrismo (Thompson & Barton, 1994); ambas
compreendidas como posturas favoráveis ao meio
ambiente, que contemplam o interesse pela questão
ambiental e manutenção dos recursos naturais, mas
diferem quanto às motivações e bases valorativas.
Pessoas ecocêntricas reconhecem a importância da
manutenção dos recursos naturais independentemente
da situação econômica ou qualidade de vida humana
e para elas a natureza tem uma dimensão espiritual e
valor intrínseco que é refletida em afetos e experiências
em ambientes naturais. Numa postura diversa, pessoas
antropocêntricas são favoráveis à manutenção dos
recursos naturais em função do conforto e qualidade
de vida humana, reconhecendo que a saúde depende
da preservação dos recursos e de um ecossistema
equilibrado.
A fim de explorar as diferenças entre tais pos-
turas, Thompson e Barton (1994) desenvolveram
um instrumento com escalas de mensuração do
antropocentrismo e do ecocentrismo (12 itens cada). Foi
acrescida uma escala de apatia ambiental (9 itens) como
contraponto às escalas anteriores. As autoras observaram
que ecocêntricos expressaram menor apatia ambiental
Cuidado ambiental em tempos de sustentabilidade
e apresentaram maior tendência a conservar os recursos
naturais e participar de organizações ambientais. Tal
postura teria então como base valores biosféricos.
Por outro lado, antropocêntricos apresentaram maior
pontuação na apatia ambiental, menor intenção de atuar
de forma pró-ecológica e menor interesse em participar
de organizações ambientais. Nesse caso, teriam como
base valores egoístas e de altruísmo social.
Posteriormente, num estudo multinacional, Schultz
e Zelezny (1999) utilizaram uma versão reduzida do
instrumento, composta apenas por itens das escalas
de antropocentrismo e ecocentrismo, descartando
a escala de apatia ambiental. Os autores reportaram
resultados semelhantes aos do estudo original, porém
ressaltaram as limitações encontradas nas associações
entre as escalas de ecocentrismo e antropocentrismo
e o relato de ações pró-ecológicas. Em estudo com
estudantes brasileiros, Coelho, Gouveia e Milfont
(2006) utilizaram a versão reduzida das escalas e
corroboraram os resultados dos estudos anteriores,
inclusive as limitações das associações com os relatos
de práticas. No desenvolvimento de um inventário de
atitudes ambientais, Milfont e Duckitt (2010) reuniram
diferentes escalas propostas pela literatura e, como nos
estudos anteriores, incluíram apenas itens das escalas
de ecocentrismo e antropocentrismo, desconsiderando
a escala da apatia ambiental.
Em seu estudo com estudantes universitários
brasileiros, Pinheiro e Pinheiro (2007) utilizaram
a versão completa da escala e identificaram
associações significativas entre a ausência de relato
de comportamento pró-ecológico e a apatia ambiental,
corroborando os achados do estudo original das
autoras da escala. Com base nesse e em outros
estudos posteriores desenvolvidos em nosso grupo de
pesquisa (Azevedo, 2008, Souza, 2009), na presente
investigação foi utilizada uma adaptação da versão
completa do instrumento de Thompson e Barton
(1994), assim como o recurso metodológico ao termo
cuidado ambiental, para tratar do relato espontâneo de
práticas avaliadas como ambientalmente significativas,
como será exposto a seguir.
ORIENTAÇÃO TEMPORAL
Com o reconhecimento da dimensão temporal
explícita no conceito de sustentabilidade, em momento
mais recente, um número crescente de estudos tem se
debruçado sobre suas associações com o compromisso
pró-ecológico, apresentando evidências empíricas
que justificam seu enquadramento no escopo de
determinantes dos estilos de vida sustentável (e.g.,
Arnocky, Milfont, & Nicol, 2013; Pinheiro & Corral-
389
Verdugo, 2010; Gifford et al., 2009; Joireman, 2005;
McElwee & Brittain, 2009; Milfont & Gouveia, 2006).
De acordo com Pinheiro (2006), há pelo menos duas
teorizações sobre temporalidade de interesse direto
para o entendimento dos estilos de vida sustentáveis.
De acordo com Zimbardo e Boyd (1999), a perspectiva
temporal constitui um processo fundamental para o
funcionamento tanto individual como social. Trata-se
da organização, em termos de categorias temporais
(passado, presente e futuro), que ajuda a conferir
sentido e ordem às vivências pessoais. Segundo os
autores, as perspectivas temporais aprendidas exercem
uma influência dinâmica sobre muitos julgamentos,
decisões importantes e ações.
A segunda teorização, a noção de consideração de
consequências futuras (CCF – Strathman, Gleicher,
Boninger, & Edwards, 1994), expressa o quanto a
pessoa considera as consequências futuras das ações
praticadas no presente e a influência sobre as escolhas
comportamentais. Envolve o conflito intrapessoal entre
o comportamento presente com o conjunto de resultados
imediatos e o conjunto de resultados futuros. De acordo
com Joireman (2005), as diferenças individuais podem
influenciar a percepção das consequências de uma
ação e desta forma direcionam e/ou influenciam a
sensibilidade em relação ao quão imediata ou distante
serão percebidas estas consequências.
O instrumento desenvolvido por Strathman et al.
(1994) como indicador de CCF foi composto origi-
nalmente por cinco itens com redação positiva (e.g.,
“Eu penso sobre como as coisas podem vir a ser no
futuro, e tento influenciá-las com minhas ações do
dia-a-dia”) e outros sete com redação negativa, que
deveriam ter seus escores revertidos no processo de
análise (e.g., “Eu só faço coisas para atender meus
interesses imediatos, pois o futuro será o que tiver de
ser”). Com base nessa estrutura unidimensional, a baixa
pontuação na escala estaria associada à priorização das
necessidades imediatas, e a alta pontuação expressaria
preocupação pelo futuro, e as consequências das ações
presentes seriam utilizadas pelo respondente como guias
para escolha comportamental (Strathman et al., 1994).
Estudos posteriores têm questionado a estrutura
original desta escala, propondo uma redução do número
de itens (Petrocelli, 2003), e apresentado evidências de
uma estrutura bifatorial, mediante a conformação de
dois fatores (ou construtos) subjacentes à escala de CCF.
De acordo com Joireman, Balliet, Sprott, Spangenberg
e Schultz (2008), o primeiro fator representa o interesse
pelas consequências imediatas do comportamento
atual e abrange os sete itens de redação negativa
(imediatismo), já o segundo fator expressa o interesse
pelas consequências distantes no futuro e abrange os
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390
itens positivos (futuro), resultados corroborados por
estudos posteriores (Joireman, Shaffer, Balliet, &
Strathman, 2012; Rappange, Brouwer, & Van Exel,
2009; Toepoel, 2010).
Investigações que abordaram as associações
entre indicadores do compromisso ecológico e as
escalas de imediatismo e futuro também apontaram
a pertinência da estrutura bifatorial como via para
aclarar as associações entre o CPE e a orientação de
futuro (Arnocky, Milfont, & Nicol, 2013; Barros,
2011; Enzler, 2013). Em uma meta-análise quantitativa
dos estudos desenvolvidos nos últimos anos sobre as
associações entre indicadores de compromisso pró-
ecológico e perspectiva temporal, Milfont, Wilson
e Diniz (2012) demonstraram que a perspectiva
temporal, como uma variável disposicional, exerce
influência sobre as atitudes pró-ecológicas e sobre o
comportamento pró-ecológico em geral. Os autores
demonstraram ainda que a orientação temporal de
futuro apresenta um pequeno efeito sobre as atitudes
ambientais e médio efeito sobre o engajamento em
ações ambientais (dimensão comportamental).
Com base no exposto, o presente estudo teve
como objetivo investigar as associações entre duas
variáveis disposicionais de estilos de vida sustentáveis,
compromisso pró-ecológico e orientação temporal,
assim como as relações entre seus indicadores e o
relato de práticas de cuidado ambiental.
MÉTODO
Participantes
Participaram voluntariamente dessa pesquisa 380
estudantes de cursos universitários, de uma instituição
pública de ensino superior da cidade do Natal (RN),
selecionados segundo a técnica de amostragem por
conveniência. A maioria era do sexo feminino (77%),
estudou em escolas particulares antes de ingressar na
universidade (68%) e a média de idade foi de 22 anos
(DP = 3,66; amplitude de 17 a 44).
Instrumento
O questionário desenvolvido para a pesquisa foi
dividido em duas partes. A primeira contemplou
dados sociodemográficos (sexo, idade, tipo de
escola que estudou por mais tempo) e uma questão
dicotômica (Sim/Não) relativa à prática pessoal de
cuidado ambiental. Em caso de resposta afirmativa, o
participante deveria relatar suas ações que avaliasse
como sendo de cuidado ambiental, tendo sido
considerados cuidadores os participantes que fizeram
esse relato. Caso não fosse relatado algum tipo de ação,
o participante seria considerado não-cuidador.
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Diniz, R. F., Pinheiro, J. Q.
A segunda parte do questionário compreendeu
a Escala de Ambientalismos Ecocêntrico e Antro-
pocêntrico (AEA – Thompson & Barton, 1994), como
indicador do compromisso pró-ecológico. Tal como
na versão original, os 33 itens da escala abordaram
antropocentrismo (e.g., “A razão mais importante pela
qual devemos conservar a natureza é a sobrevivência
dos seres humanos”), ecocentrismo (e.g., “A natureza
deve ser valorizada por si mesma”) e apatia ambiental
(e.g., “Ameaças ambientais tais como o desmatamento
e a diminuição da camada de ozônio têm sido
exageradamente divulgadas”). Os participantes
indicaram seu grau de concordância ou discordância
numa escala tipo Likert, variando de 1 = Discordo
muito a 7 = Concordo muito.
O questionário compreendeu ainda, como indicador
da orientação temporal, a Escala de Consideração de
Consequências Futuras (CCF - Strathman et al., 1994),
considerando sua estrutura bifatorial, com itens de
orientação imediatista (e.g., “Eu só faço coisas para
atender meus interesses imediatos, pois o futuro será
o que tiver de ser”) e de orientação de futuro (e.g.,
“Eu penso sobre como as coisas podem vir a ser no
futuro, e tento influenciá-las com minhas ações do
dia-a-dia”). Novamente, foi utilizada uma escala de
resposta tipo Likert com sete pontos, de 1 = Bastante
inaplicável a 7 = Bastante aplicável. Ambas as escalas
utilizadas foram submetidas à validação semântica em
estudos anteriores com populações de características
semelhantes, os quais possibilitaram adaptações
aos grupos investigados e orientaram a adoção de
escalas Likert de sete pontos, a fim de favorecer maior
variabilidade das respostas (Azevedo, 2008; Pinheiro
& Pinheiro, 2007; Sousa, 2009).
Procedimentos
A aplicação dos questionários foi feita em salas
de aula, mediante autorização prévia da instituição e
do professor responsável pela turma, supervisionada
por um único e mesmo pesquisador, adotando um
procedimento padrão, com duração máxima de 30
minutos. Ressalta-se que a pesquisa foi aprovada pelo
Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário
Onofre Lopes (CEP-HUOL/UFRN). Nesse sentido,
foram considerados aspectos éticos que incluíram
informe livre e esclarecido aos participantes sobre os
objetivos da pesquisa, possíveis riscos envolvidos e
compromisso em manter total confidencialidade dos
dados de identificação dos mesmos.
Análise dos dados
Ademais das análises descritivas, a fim de
identificar as condições de distribuição das variáveis
Cuidado ambiental em tempos de sustentabilidade
específicas para o grupo investigado, foi utilizada a
análise fatorial exploratória. Em função da dimensão
do conjunto de dados e com vistas a alcançar maior
porcentagem de variância explicada, uma estrutura mais
clara e com melhores índices estatísticos, foi utilizada
uma extração de componentes principais (ACP). Na
composição dos fatores, foram eliminados os itens com
cargas fatoriais inferiores a 0,4 ou cargas satisfatórias
em mais de um fator. Com as novas variáveis, criadas a
partir da média ponderada para cada fator, foram feitas
análises de regressão linear a fim de verificar o sentido
e a magnitude das relações entre os construtos (Dancey
& Reidy, 2006).
Os relatos das ações de cuidado ambiental foram
digitalizados e submetidos à análise de conteúdo
(Sommer & Sommer, 1997). Para tanto, foram estabe-
lecidas macro categorias prévias, definidas com base
em estudos anteriores, quais sejam: manejo de resíduos
(e.g. separação ou reaproveitamento dos resíduos,
coleta seletiva), conscientização (educação ambiental,
participação em eventos e projetos), consumo (e.g.
economia de recursos, produtos ecológicos), preservação
(e.g.cultivo de plantas) e formação (pesquisa, curso)
(Barros, 2011; Link, 2006; Pinheiro & Pinheiro, 2007).
RESULTADOS
Inicialmente são apresentados os resultados das
análises das escalas, suas correlações e modelos
explicativos e, em seguida, as associações com o relato
da prática de cuidado ambiental. A distribuição das
variáveis da escala de Ambientalismos Ecocêntrico e
Antropocêntrico (AEA) foi semelhante à encontrada
por Thompson e Barton (1994), com a exclusão de
doze itens e total de 39,98% da variância explicada
(KMO = 0,78; X2 = 1657,266; df = 210; p < 0,001).
O Fator “Ecocentrismo” contemplou o afeto positivo
relacionado com o contato direto com a natureza
(e.g., “Preciso passar algum tempo junto à natureza
para ser feliz”; “Quando me sinto triste encontro
391
conforto na natureza.”). Os itens excluídos abordavam
posicionamentos favoráveis à proteção de áreas
naturais, assim como afetos negativos relacionados com
o desmatamento, o que aponta para uma reconfiguração
da postura ecocêntrica no grupo investigado. Já o Fator
“Antropocentrismo”, contemplou uma postura em favor
da manutenção dos recursos naturais para a manutenção
da qualidade de vida e do bem-estar humano (e.g.,
“Precisamos preservar os recursos para manter uma alta
qualidade de vida”; “A razão mais importante para a
conservação ambiental é a sobrevivência humana”). Os
dois itens excluídos contemplavam a diferenciação entre
seres humanos e demais seres vivos. Por fim, o Fator
“Apatia Ambiental” (e.g., “Eu acho que o problema
do esgotamento dos recursos naturais não é tão ruim
como se diz”; “A maioria dos problemas ambientais
se resolverá por conta própria se lhes for dado tempo
suficiente”), contemplou o não envolvimento com a
questão ambiental, e teve três itens excluídos. Embora
o último fator tenha apresentado índices estatísticos
inferiores aos demais, apresentou correlações signi-
ficativas nas análises bivariadas.
Quanto à escala de Consideração de Consequências
Futuras (CCF), na conformação da estrutura bifatorial
não houve exclusão de itens, tendo explicado 41,65%
da variância total (KMO = 0,821; X2 = 855,523;
df = 66; p < 0,001). O Fator Imediatismo foi composto
pelos itens que tratam da orientação temporal focada
no momento presente (e.g., “Eu só faço coisas para
atender meus interesses imediatos, pois o futuro será
o que tiver de ser”; “Eu acho que se sacrificar agora
é em geral desnecessário já que se pode lidar com
acontecimentos futuros em um momento posterior.”). Já
o Fator Futuro agrupou os itens relativos à consideração
de consequências futuras (e.g., a “Eu estou disposto a
sacrificar minha felicidade ou bem-estar imediatos a fim
de alcançar consequências futuras”; “É comum eu me
envolver em alguma ação para conseguir resultados que
podem demorar muitos anos a aparecer”). Os índices
estatísticos das escalas são apresentados na Tabela 1.
TABELA 1
Número de itens, médias, desvios padrão e Alfas de Cronbach das escalas AEA e CCF
Escala
Ambientalismos Ecocêntrico e Antropocêntrico
Antropocentrismo
Ecocentrismo
Apatia ambiental
Consideração de Consequências Futuras
Imediatismo
Futuro
Nº de itens
M
10
3,76
5
5,05
6
2,49
7
1,44
5
2,94
s.d.
% Variância
explicada
0,95
15,59
1,25
13,89
0,94
10,49
0,60
25,12
0,56
16,03
Alfa de
Cronbach
0,75
0,78
0,59
0,75
0,58
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392
As correlações entre ecocentrismo, antropocen-
trismo e apatia ambiental e as orientações temporais,
imediatismo e futuro, embora tendo alcançado
índices de fracos a moderados, foram significativas
e nas direções esperadas. De forma mais evidente e
delimitando extremos, o Ecocentrismo apresentou
correlação positiva com futuro e a apatia ambiental
teve correlação positiva com o imediatismo. Já o
antropocentrismo apresentou correlação positiva com
ambas as orientações temporais (Tabela 2).
TABELA 2
Correlações entre antropocentrismo, ecocentrismo, apatia
ambiental e orientação temporal
Fatores
1. Antropocentrismo
2. Ecocentrismo
3. Apatia Ambiental
4. Imediatismo
5. Futuro
* p < 0,05 (bicaudal).
1
0,03
 0,12*
 0,22*
 0,12*
2
-0,15*
-0,22*
0,33*
3
0,40*
-0,18*
4
-0,30*
A partir das análises de regressão foi possível
avançar no entendimento sobre a direção das relações
entre os fatores das escalas. Na primeira análise,
com os fatores da escala AEA colocados no primeiro
passo, foram encontradas três equações significativas:
ecocentrismo [F (1, 367) = 55,35; p < 0,001; R = 0,36)],
teve como preditor o futuro (β = 0,36; p < 0,001);
antropocentrismo [F (2, 364) = 21,58; p < 0,001;
R = 0,32)], teve como preditores tanto o imediatismo
(β = 0,31; p < 0,001) quanto o futuro (β = 0,24; p < 0,001);
e a apatia ambiental [F(1, 364) = 50,92; p < 0,001;
R = 0,35) teve como preditor o imediatismo (β = 0,39;
p < 0,001). A porcentagem de variância explicada para
os modelos (R²) foi de 8% a 12%.
Na segunda análise, com a ordem de entrada dos
fatores invertida, o imediatismo [F(3, 359) = 33,67;
Diniz, R. F., Pinheiro, J. Q.
p < 0,001; R = 0,47)] teve como preditores a apatia
ambiental (β = 0,34; p < 0,001), o antropocentrismo
(β = 0,19; p < 0,001), e negativamente o ecocentrismo
(β = -0,15; p = 0,002). Já futuro [F(3, 359) = 22,17;
p < 0,001; R = 0,39)] teve como preditores o ambien-
talismo ecocêntrico (β = 0,31; p < 0,001), o ambienta-
lismo antropocêntrico (β = 0,13; p < 0,001) e, nega-
tivamente, a apatia ambiental (β = -0,13; p < 0,001).
Nessa etapa houve aumento na porcentagem de
variância em ambos os modelos, tendo atingido 21%
e 15% respectivamente.
Do total de participantes, 77% (294/380) res-
ponderam afirmativamente à questão sobre a prática
de cuidado ambiental e relataram algum tipo de ação.
As ações mais comumente relatadas foram relativas
ao manejo de resíduos (e.g., não jogar lixo no chão), à
conscientização (e.g., educação ambiental) e à redução
do consumo (e.g., economia de água e/ou de energia).
Não foram encontradas associações significativas entre
o relato da prática de cuidado ambiental e as variáveis
sexo, idade e tipo de escola em que o participante
estudou.
Os não-cuidadores apresentaram maiores médias
em antropocentrismo e, como esperado, em apatia
ambiental e imediatismo. Não houve diferenças entre
os grupos quanto ao ecocentrismo. E, por fim, foram
encontradas diferenças entre grupos com relação à
variável sexo, tendo as mulheres apresentado maior
ecocentrismo, e os homens maior apatia ambiental e
imediatismo (Tabela 3).
DISCUSSÃO
No presente estudo foram investigadas relações
entre indicadores de compromisso pró-ecológico e de
orientação temporal e suas associações com o relato
de práticas de cuidado ambiental. De forma geral, os
resultados foram coerentes com estudos anteriores,
aportando novas evidências empíricas relativas à
pertinência de considerar a perspectiva temporal como
TABELA 3
Diferenças de médias (M) e desvios padrão (DP) entre os fatores das escalas de AEA e CCF para cuidado ambiental e sexo
Variável
Grupos
n
Cuidado ambiental Cuidadores
294
Não-cuidadores
86
Sexo
Mulheres
291
Homens
89
1 Antropocentrismo; 2 Ecocentrismo; 3 Apatia ambiental.
* p ≤ 0,05.
ANT1
M
DP
3,68* 0,95
4,04* 0,89
3,78 0,93
3,69 1
ECO2
M
DP
5,11 1,21
4,85 1,37
5,18* 1,15
4,62* 1,45
APA3
M DP
2,39* 0,85
2,82* 1,16
2,33* 0,86
2,98* 1,01
Imediatismo
M
DP
1,38* 0,54
1,64* 0,73
1,39* 0,59
1,60* 0,61
Futuro
M
DP
2,96 0,54
2,88 0,60
2,95 0,56
2,95 0,55
Psico, Porto Alegre, PUCRS, v. 45, n. 3, pp. 387-394, jul.-set. 2014
Cuidado ambiental em tempos de sustentabilidade
uma das dimensões envolvidas na adoção (ou não)
de uma postura em favor do meio ambiente, quando
considerada a noção de sustentabilidade. A relevância
do estudo também decorre do fato de que os estudos
sobre essas relações tem sido realizados em sua maioria
em contexto internacional.
Em consonância com a literatura, ainda que com
índices estatísticos modestos, foram encontradas
evidências empíricas das associações entre compromisso
pró-ecológico, mais fortemente o ecocentrismo, e a
orientação temporal de futuro (Barros, 2011; Corral-
Verdugo, 2010; Gifford et al., 2009; Joireman, 2005;
McElwee & Brittain, 2009; Milfont & Gouveia, 2006;
Milfont, Wilson & Diniz, 2012; Pinheiro & Corral-
Verdugo, 2010).
Entretanto, houve uma ambiguidade quanto às
relações entre antropocentrismo e as orientações
temporais, visto que tal postura apresentou correlação
positiva tanto com futuro, quanto com imediatismo.
Tal evidência sugere que, além da diferença existente
entre as bases valorativas das posturas antropocêntrica
e ecocêntrica, apontada tanto no estudo original da
escala quanto em estudos posteriores (Coelho, Gouveia
& Milfont, 2006; Schultz & Zelezny, 1999; Thompson
& Barton, 1994), a orientação temporal pode também
ser considerada como variável que diferencia tais
posturas. É válido aprofundar o entendimento sobre
a orientação temporal de pessoas antropocêntricas,
visto que tal orientação esteve associada à ausência de
cuidado ambiental.
Ressalta-se, ainda, a relevância da escala de apatia
ambiental no contexto de mensuração do compromisso
pró-ecológico, visto que resultou num contraponto
importante quando consideradas as associações com
as demais variáveis, especialmente com a orientação
temporal. Nesse sentido, recomenda-se que estudos
posteriores considerem medir a postura de indiferença
quanto às questões ambientais, aprofundando sua
relação com o imediatismo, assim como identificando
associações com outras variáveis.
Quando considerado o relato de práticas de cuidado
ambiental, o ecocentrismo e a orientação de futuro
não diferenciaram os grupos. Houve associações
evidentes entre o antropocentrismo, a apatia ambiental
e o imediatismo e a ausência de práticas de cuidado
ambiental. O que reforça a ideia de que é necessário
explorar as dimensões psicológicas associadas com
o não engajamento em práticas de cuidado am-
biental.
Estudos posteriores podem suplantar algumas das
lacunas apontadas na presente investigação abordando
novos grupos de participantes, com características
diferentes e em contextos de coleta diferenciados. Tendo
393
em vista que a maior parte dos estudos que abordam
as mesmas relações aqui exploradas foram realizadas
em outros países, observa-se que a manipulação de
novas variáveis, inclusive novas variáveis sociodemo-
gráficas a partir de amostras mais heterogêneas, pode
enriquecer e produzir avanços no conhecimento acerca
da adoção de estilos de vida sustentáveis em contexto
brasileiro.
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Autores:
Raquel F. Diniz – Doutoranda, Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
José Q. Pinheiro – Doutor, Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Endereço de correspondência:
Raquel F. Diniz
José Simões de Araújo, 967
CEP 58035-070 João Pessoa, PB, Brasil
E-mail: raquelfdiniz@gmail.com
Recebido em: 16.05.2014
Aceito em: 10.08.2014
Psico, Porto Alegre, PUCRS, v. 45, n. 3, pp. 387-394, jul.-set. 2014