Como negação do Outro, a ontologia
fecha-se em um processo narcísico no
“ser-para-si”, excluindo o mundo
diferente de “si”. Assevera Zimmermann
(1987, p. 61) que a “Totalidade, como
âmbito fechado, ontológico, eterna
repetição do mesmo, princípio originante
e justificador da dominação, da conquista,
da afirmação do ser como absoluto e,
consequentemente, como princípio da
negação da alteridade”. A Modernidade,
além de período histórico eurocêntrico, é
um projeto egótico, narcísico, fechado
“em si” e “para si”. A filosofia confunde-
se com a própria ontologia. Nesse sentido,
Mattéi observa (2002, p. 169) que “O
homem antigo fundava a grandeza de sua
alma no mundo ou, em Platão, nesse além
do mundo que é o bem; o homem cristão
fundava a dignidade da pessoa em Deus; o
homem moderno funda unicamente seu eu
sobre si mesmo”. O pensar e o viver
reduziram-se ao ser como sujeito absoluto,
e fora do sujeito como “ser-egótico” não
há outra realidade. É a negação do mundo
e o fechamento do ser. A base da conquista
e da violência colonialista que se instaura
com a Modernidade está na interiorização
radical do ser como sujeito absoluto, sem
alteridade e sem exterioridade com o
mundo. Entende Mattéi (2002, p. 151) que
“Esse olhar subtraído ao mundo e voltado
para si, num processo de interiorização
radical, priva claramente o homem de toda
substância [...]”. E pondera “(no Homem a
substância é nula) ao mesmo tempo que
priva o mundo de toda razão (o mundo,
cheio de coisas, é vazio de razões)”.
Nesse sentido, trata-se do olhar do
colonizador, branco, europeu, cristão, e
radicalmente interiorizado na totalização
de uma ontologia egótica. Esse processo,
como menciona Dussel (1977, p. 105), é
“[...] a totalidade totalizada da mesmidade
sem real exterioridade, sem alteridade”, ou
seja, o vazio, a interiorização sem saída do
ser em “si-mesmo” O pensamento
filosófico a partir da Modernidade isola-se
na totalização do sujeito, seja em Hegel,
Kant, Husserl ou Nietzsche. “Desde então,
a alma do homem se encontrará
definitivamente marcada, no que se refere
a toda tradição ocidental, de Agostinho a
Rousseau e de Descartes a Nietzsche, por
uma insondável subjetividade na qual se
manifesta a espiral dos abismos interiores”
(MATTEI, 2002, 143), ou seja, a matriz
egótica interiorizada no ser absolutizado
pela ontologia totalizadora dos modernos.
“Para Kant, o Outro desapareceu do
horizonte do saber [...]” (DUSSEL, 1977,
p. 104) e “Se houve na modernidade um
caso paradigmático dessa inclusão de “o
Outro” em “o mesmo” absoluto foi Hegel.
O ab-soluto sem alteridade é o absoluto, o
único, o solitário, o que não tem outro fora
de si mesmo” (DUSSEL, 1977, p. 103).
Ainda nessa direção, indica Zimmermann
(1987, p. 181) que “Estaríamos na absoluta
lógica da totalidade. Seria a lógica
dialética hegeliana, a lógica perfeita da
totalidade. Mais, seria a constituição de
um novo fundamento, de uma nova arché,
ou seja, da subjetividade moderna dos
idealistas (como Eu Absoluto constituinte
do ser) [...]”.
Seja o racionalismo de Descartes, o
idealismo de Kant, o niilismo de Nietzsche
ou a fenomenologia de Husserl, o
fundamento radical da ontologia do sujeito
está presente no pensar eurocêntrico
moderno, pois “O fundamento da moral
fenomenológica de tipo husserliano é a
subjetividade como sujeito” (DUSSEL,
1977, p. 38), e, fora da realidade do
sujeito, não há exterioridade do Outro. O
mundo fica submisso, sujeito ao sujeito
radicalizado. O mundo e o Outro são
objetivados pela subjetividade do sujeito.
Mesmo o existencialismo de Heidegger,
crítico da história do sujeito, não supera a
ontologia totalizadora, radicada agora no
ser-no-mundo. Como observa Chalier
(1993, p. 37), “[...] nem Husserl nem
Heidegger consente a ideia de uma
alteridade que orientasse o pensamento,
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