Disparidade de gênero em cargos de liderança: um estudo bibliométrico
supervisão e apenas 1,6% da gerência. No quadro executivo, a presença cai para 0,4%, sendo apenas duas
mulheres entre 548 diretores, independentemente de raça ou gênero.
Embora as mulheres apresentem maior nível de escolaridade, conforme apontado por Sandra e Casa Nova
(2024), persistem as desigualdades em termos de oportunidades de trabalho e remuneração, especialmente no
meio acadêmico. Essa disparidade é ainda mais acentuada para mulheres negras, em um contexto social
permeado por redes de poder e relações de interesse que perpetuam a ordem vigente. O acesso de mulheres
negras ao mercado de trabalho no Brasil enfrenta obstáculos adicionais desde a educação básica, impactado por
fatores como condições socioeconômicas e qualidade do ensino.
Dados do IBGE (2024) referente ao ano de 2023 ilustram as disparidades de raça e gênero na gestão. Em nível
nacional, 66% desses cargos são ocupados por pessoas brancas, enquanto pretos e pardos representam 32%.
As regiões Norte e Nordeste apresentam um padrão distinto, com cargos de gestão majoritariamente ocupados
por pessoas pretas ou pardas (62,5% e 51,6%, respectivamente). Nas demais regiões, a representatividade de
pretos e pardos em cargos de gestão é inferior a 50%, com destaque para a região Sul, onde 84,1% dos gestores
são brancos e apenas 15% são pretos ou pardos. Em cargos gerenciais homens brancos ocupam 64,9%,
enquanto homens negros representam 33%. Mulheres brancas ocupam 67,7% desses cargos, em comparação
com 30,2% de mulheres negras. Não obstante, no mesmo período de 2023, a média salarial mensal de acordo
com gênero e raça também apontaram assimetrias significativas. Homens brancos, independentemente do cargo
ocupado recebem mais que homens negros e pardos, que mulheres brancas e mulheres negras e pardas. A média
salarial mensal para homens brancos foi de R$ 4.167, enquanto mulheres brancas receberam R$ 3.186, homens
negros R$ 2.403 e mulheres negras R$ 1.905.
Essa estrutura social impõe segregação e epistemicídio, resultando em oportunidades perdidas, algumas delas
irreversíveis. Sandra e Casa Nova (2024) observam que, mesmo quando as situações se revertem positivamente,
a dor e o desconforto persistem. O sexismo e o racismo são obstáculos evidentes para o desenvolvimento
profissional, e cabe às organizações atender às demandas sociais por igualdade (Ferreira et al., 2020).
2.2 Explorando causas, efeitos e potenciais ações reparadoras
O denominador comum entre algumas das abordagens acima, no sentido de compreender o motivo de tais
contextos, é o neoliberalismo. Este modelo implica evidentemente nas questões de gênero, já que demanda
produção, dedicação, ritmos acelerados e um conceito de “excelência” dentro de um cenário em que, no contexto
familiar, por exemplo, o homem é desassociado da obrigatoriedade do papel de cuidar. Desse modo, o discurso
meritocrático potencializa a disparidade nos gêneros, utilizando-se de tendenciosos critérios avaliativos e de
promoção. (Poggio, 2022; Meade et al., 2022)
Na ciência, por exemplo, alguns fatores podem contribuir para a lacuna de gênero e um desses fatores é a
maternidade. De acordo com Carpes et al. (2022, p. 1) "A parentalidade traz consigo grandes e diferentes
responsabilidades, que podem impactar a carreira de cientistas, e a comunidade acadêmica deve estar ciente
desse impacto, que não é igual para homens e mulheres.".
Estes resultados sugerem que a maternidade tem um impacto importante nas carreiras das mulheres cientistas,
o que não é uma característica específica do meio acadêmico, mas sim dos ambientes de trabalho em geral.
Estudos anteriores já indicaram que a maternidade leva à penalização das mulheres, enquanto a paternidade não
tem as mesmas consequências para a carreira profissional dos homens.
Posto isto, fica evidente que a questão da disparidade de gêneros está presente em diferentes países e possuem
configurações complexas e estruturais. Considerado um fenômeno global, ações e políticas a fim de diminuir tais
desproporções são de extrema importância para uma sociedade mais justa e igualitária.
Neste sentido, dos 17 ODS estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2015, destaca-se o
objetivo 5, que diz respeito à igualdade de gênero. Dentro do contexto dos ODS, existem indicadores e metas
específicas, associadas a eles, para monitorar e medir o progresso em direção a alcançar esses objetivos.
Ao que concerne sobre a presença de mulheres em cargos de liderança, tem-se especificamente a meta 5.5 que
visa "Garantir a participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades para a liderança em
todos os níveis de tomada de decisão na vida política, econômica e pública" (ONU, 2015). Este, por sua vez,
confere que promover a igualdade de gênero é um princípio fundamental para alcançar o desenvolvimento
sustentável, pois promove a justiça social, a equidade e a plena participação de todos na sociedade.
No. Esp. (2025) e019 • http://biblios.pitt.edu/ • DOI 10.5195/biblios.2025.1250
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