dados à educação e às relações entre pais e filhos nas últimas décadas, que expressam
maior respeito a personalidade das crianças (ROGERS, 1977, p. 37); a liberação sexual
devolvendo o poder sobre o corpo e o prazer às pessoas, cuja retirada em relação a normas
conservadoras teve forte impulso no movimento de contracultura (ROSZAK, 1969).
O discurso do movimento da contracultura é baseado na busca por um modo
alternativo de viver, afirmava-se como uma cultura especificamente renovadora, em que a
qualidade de vida se sobrepunha aos interesses dos poderes políticos, econômicos e
religiosos. A própria ideia de sociedade alternativa fazia um contraponto com a sociedade de
consumo que, então, iniciava sua maioridade, já que se constituía num projeto definido da
economia do pós-guerra. Essa busca envolvia uma espécie de libertação da normose
(WEIL, LELOUP & CREMA, 2011). As autoridades de todas as ordens foram confrontadas:
a autoridade dos pais e mães, a autoridade político-econômico-militar, a autoridade
religiosa. Havia um rotundo não à hipocrisia de um modo adaptado de viver. É o que pode
estar sendo reavivado, agora em outros termos e com outras demandas, nas manifestações
presentes e, acredito, nas futuras.
Em termos de contracultura, a ruptura com o passado se configurava como uma sutil
transformação humana, que permite paralelos úteis com o momento presente. Ela foi
percebida por Rogers (1977, p. 241), cuja abordagem chamada Centrada na Pessoa fora
recebida com fortes críticas da comunidade psiquiátrica ao propor o abandono das
estruturas de poder da relação médico-paciente na psicoterapia, nos anos 1940 e 1950. No
final dos anos 1970, Rogers identificou um novo fenômeno:
[...] uma abordagem centrada na pessoa conduziria, em muitos aspectos da
nossa vida, a uma maneira de ser desejável, construtiva e viável. Não tenho
ilusões a respeito do grau de apoio que este ponto de vista possa obter
neste país (EUA). A direção do futuro da nossa nação está no fio da
navalha; estamos a viver um tempo de escolhas cruciais – conscientes e
inconscientes – que determinarão o nosso futuro. Uma lição que aprendi,
muitas vezes, com o meu jardim, é a de que os restos castanhos e
putrefatos das plantas de um ano são estrume, onde se podem descobrir os
rebentos dos anos seguintes. Por isso, acredito, também, que na nossa
cultura decadente se notam os vagos contornos de um novo crescimento,
de uma nova revolução, de uma cultura de tipo muito diferente. Vejo que
essa revolução se aproxima, não sob a forma de um grande movimento
organizado, nem de um exército armado, com estandartes, nem através de
manifestos e declarações, mas pela emergência de um novo gênero de
pessoa, que brota através das folhas e caules mortos, amarelecidos e
podres das nossas instituições em estiolamento. Um novo tipo de pessoas,
com valores muito diferentes dos da nossa cultura atual, está a emergir em
números crescentes, e a viver e a ser de maneiras que rompem com o
passado. Em todos os campos, há uma revolução silenciosa em marcha,
que promete levar-nos para frente, em direção a um mundo mais humano e
mais centrado na pessoa (Rogers, 1977)
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