Moléstia de Chagas e ecologia profunda: a “luta antivetorial” em questão, Chagas’s disease and deep ecology: the anti-vectorial fight in question
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Moléstia de Chagas e ecologia profunda:
a “luta antivetorial” em questão
Chagas’s disease and deep ecology:
the anti-vectorial fight in question
Rodrigo Siqueira-Batista 1
Andréia Patrícia Gomes 1
Giselle Rôças 2
Rosângela Minardi Mitre Cotta 1
Eduardo Cárdenas Nogueira Rubião 3
Alcides Pissinatti 3
Abstract The inter-relations between man and
the environment are among the main themes
currently debated by the Brazilian public health.
On such horizon, the questions concerning Cha-
gas’s disease are found to remain – specially in the
scope of the directed actions of control to the tri-
atomine, the anti-vectorial fight –, though al-
ready a century since its first description by Car-
los Chagas, a major epidemiological problem in
Latin America. Based on these considerations the
present article will seek to discuss the main eco-
logical aspects related to the American trypano-
somiasis, emphasizing the control of the vectorial
transmission in the context of the deep ecology.
Key words Ecology, Chagas’s disease, Trypano-
soma cruzi, Ethics, Health
Resumo As inter-relações entre o homem e o
meio ambiente estão entre os principais temas
debatidos no contexto atual da saúde pública bra-
sileira. Neste horizonte se inscrevem as questões
atinentes à moléstia de Chagas – especialmente
no âmbito das ações de controle dirigidas aos tri-
atomíneos, a luta antivetorial –, a qual permane-
ce, mesmo após quase um século de sua descrição
por Carlos Chagas, como uma condição de grande
impacto epidemiológico na América Latina. Com
base nestas considerações, o presente artigo bus-
cará discutir os principais aspectos ecológicos re-
lacionados à tripanossomíase americana – em um
esforço de delimitação da questão, muito mais do
que proposição de respostas –, enfatizando-se o
controle da transmissão vetorial, repensada em
termos da ecologia profunda.
Palavras-chave Ecologia, Moléstia de Chagas,
Trypanosoma cruzi, Ética, Saúde
1 Universidade Federal de
Viçosa. Av. Peter Henry
Rolfs s/nº, Campus
Universitário. 36570-000
Viçosa MG.
rsiqueirabatista@
yahoo.com.br
2 Instituto Federal de
Educação, Ciência e
Tecnologia do Rio de
Janeiro.
3 Centro Universitário Serra
dos Órgãos.
678
Introdução
A moléstia de Chagas (ou tripanossomíase
americana) – enfermidade parasitária causada
pelo protozoário flagelado Trypanosoma cruzi e
transmitida por insetos da família Triatominae1,2
– é uma antropozoonose restrita à América, com
significativo impacto sanitário e socioeconômico
no continente. Estima-se que a enfermidade atinja
em torno de seis milhões de pessoas nos países
nos quais grassa, ceifando, anualmente, cerca de
50 mil vidas3-5.
Boa parte da história de misérias e sofrimen-
tos relacionados ao mal de Chagas pode ser asso-
ciada à perpetuação da transmissão vetorial, res-
ponsável pela maior parte do contingente de in-
fectados por T. cruzi do planeta. De fato, díspares
investigações demonstraram a existência de uma
correlação direta entre a densidade doméstica de
triatomíneos infectados e o número de casos agu-
dos, especialmente nas crianças6,7. Assim, as ações
de controle desenvolvidas ao longo do século XX
– especialmente aquelas dirigidas à redução da
transmissão por vetores – têm permitido uma
transição epidemiológica ao menos em determi-
nadas regiões do continente, sendo observada
forte tendência à queda do número de casos em
alguns países – como Argentina, Brasil (país que
recebeu, recentemente, o Certificado Internacio-
nal de Eliminação da Transmissão da Doença de
Chagas pelo Triatoma infestans)8, Chile, Uruguai
e Venezuela –, ainda que outros – como Bolívia,
Paraguai e Peru – permaneçam com prevalências
consideráveis, provavelmente pela implementa-
ção recente dos seus programas de controle9-11.
A despeito das benesses relacionadas às ações
dirigidas aos vetores, é ilusório pensar que tal
perspectiva, marcadamente belicista (marcial) –
fala-se da luta antivetorial, ou seja, da necessida-
de de exterminar os triatomíneos que insistem
em manter-se nas vivendas humanas – seja ca-
paz, efetivamente, de controlar a enfermidade.
De fato, (1) a resistência dos transmissores aos
diferentes inseticidas empregados; (2) as dificul-
dades de manejo do peridomicílio; (3) as ques-
tões relacionadas aos ciclos selváticos do T. cruzi
(p. ex., na Amazônia); e (4) o fato de a moléstia
de Chagas poder ser considerada uma doença
genuinamente ecológica9,12 impõem que sejam
pensados novos referenciais para a abordagem
do problema, quiçá em uma perspectiva de con-
servação das espécies envolvidas, minimizando-
se o desequilíbrio ambiental.
É precisamente neste âmbito que ganha rele-
vância a abordagem da enfermidade nos refe-
renciais da ecologia – do grego óikos = morada;
lógos = discurso; ou seja, estudo sobre a casa –
termo criado pelo biólogo Ernst Haeckel em
186613. De fato, seu significado originário – saber
que investiga a inter-relação dos seres vivos em
um dado espaço geográfico (sua casa), estando,
assim, intimamente relacionada às questões am-
bientais – foi, ao longo do século XX, ampliado
sobremaneira, ganhando status de importante
referencial teórico para se pensar o mundo con-
temporâneo – em termos éticos, políticos, epis-
temológicos e econômicos –, como demarcado
por Leonardo Boff: [a ecologia de] um discurso
regional como subcapítulo da biologia passou a ser
atualmente um discurso universal, quiçá o de maior
força mobilizadora do futuro milênio13.
A ecologia, assim, tem sido empregada para
debater diferentes aspectos relacionados à vida
na Terra – destacando-se os pontos dirigidos à
saúde – no âmbito de uma concepção de inte-
gração dos seres vivos, aspecto que vem sendo
considerado na abordagem da epidemiologia e
do controle da tripanossomíase americana há dé-
cadas. Entretanto, a apreciação dos distintos ele-
mentos atinentes à moléstia de Chagas – em de-
corrência das múltiplas possibilidades de intera-
ção dos diferentes partícipes dos processos de
perpetuação da doença, ou seja, o Trypanosoma
cruzi, os triatomíneos e os mamíferos (incluído
o Homo sapiens sapiens) – vem sendo realizada
de modo marcadamente antropocêntrico, carac-
terizável, de acordo com os pressupostos de Arne
Naess, como uma “ecologia rasa”, a qual concebe
os seres humanos como situados acima ou fora
da natureza, atribuindo apenas um valor instru-
mental, ou de “uso”, a esta última14,15.
Com base nestas premissas, discutir a luta
antivetorial, partindo-se de uma apreciação eco-
epidemiológica da doença, nos termos do arca-
bouço conceitual da ecologia profunda, é o esco-
po do presente artigo.
Partícipes da teia ecoepidemiológica
A compreensão da complexa “teia ecoepidemio-
lógica” da tripanossomíase pressupõe o entendi-
mento dos principais aspectos biológicos e eco-
lógicos dos triatomíneos e dos reservatórios, os
quais permitem a formulação de explicações para
a circulação e a perpetuação do Trypanosoma cru-
zi (Figura 1).
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Trypanosoma cruzi
infecção/
doença
Triatomíneos
Mamífero
Figura 1. Interações dos participantes da teia
ecoepidemiológica da moléstia de Chagas.
Os vetores: triatomíneos
Os triatomíneos são insetos grandes, perten-
centes à família Reduviidae e da subfamília Tria-
tominae16. São hematófagos obrigatórios, pos-
suindo hábitos noturnos e longevidade de até dois
anos17. O principal representante no Brasil é o
Triatoma infestans – usualmente denominados
como “barbeiro” –, a espécie mais importante na
ecoepidemiologia da tripanossomíase americana
no Brasil, tendo-se registrado sua ocorrência em
mais de 720 municípios brasileiros3. Todavia, ou-
tras espécies possuem, também, significativa im-
portância na ecologia da tripanossomíase ameri-
cana, podendo-se citar Rhodnius prolixus, Pans-
trongylus megistus e Triatoma sordida18,19.
É amplamente reconhecido que o fenômeno
mais importante na ecoepidemiologia da molés-
tia de Chagas é a domiciliação dos transmisso-
res. Assim, em concordância com suas caracte-
rísticas bioecológicas e capacidade de domicilia-
ção, os triatomíneos podem ser classificados em
cinco grupos (Quadro 1)20,21.
Quadro 1. Classificação dos triatomíneos vetores da moléstia de Chagas, como base em aspectos
bioecológicos e capacidade de domiciliação.
Grupos
Grupo 1
Grupo 2
Grupo 3
Grupo 4
Grupo 5
Aspectos significativos
Espécies com significativa adaptação
aos ecótopos artificiais; são raras ou
inexistentes nos ecótopos silvestres
Espécies em movimento de
domiciliação; podem ser, com
frequência, encontradas em focos
silvestres
Espécies prioritariamente silvestres;
eventualmente fazem incursões em
ecótopos artificiais, onde raramente
se encontram pequenas colônias
Espécies essencialmente silvestres;
insetos adultos podem ser detectados,
de modo excepcional, em habitações
humanas, sem nunca colonizá-las
Espécies exclusivamente silvestres
Principais espécies
Triatoma infestans, Triatoma rubrofasciata e
Rhodnius prolixus (este último tem a particularidade
de poder ser encontrado tanto no ambiente silvestre,
especialmente em palmeiras, como no doméstico)
Triatoma dimidiata, Triatoma sordida, Triatoma
maculata, Triatoma brasiliensis, Triatoma
pseudomaculata, Triatoma barberi, Triatoma
longipenis e Panstrongylus megistus (este último
mostra-se muito mais adaptado às habitações no norte
de Minas Gerais e Bahia, sendo predominantemente
peridomiciliar e silvestre ao sul de Minas Gerais e São
Paulo, e praticamente selvático em Santa Catarina)
Triatoma rubrovaria, Triatoma protracta, Triatoma
tibiamaculata, Triatoma vitticeps, Triatoma
matogrossensis, Rhodnius neglectus, Rhodnius nasutus,
Rhodnius pictipes, Rhodnius ecuadoriensis, Rhodnius
robustus e Rhodnius pallescens
Triatoma arthurneivai, Triatoma nitida, Triatoma
platensis, Panstrongylus geniculatus, Panstrongylus
lutzi, Panstrongylus diasi e outros
Dipetalogaster maximus, Paratriatoma hirsuta,
Hermanlentia matsunoi, Mepraia spp, Psammolestes
spp, Cavernicola spp, Microtriatoma spp, Belminus
spp e outros
Fonte: Ferreira et al.20; Silveira21.
680
Outros protozoários, além do T. cruzi, po-
dem infectar os triatomíneos – como Trypano-
soma rangeli –, podendo haver risco de confusão
diagnóstica nas áreas de ocorrência simultânea
de ambos os agentes22,23.
Os reservatórios: mamíferos
Há inúmeras espécies de animais selváticos e
domésticos que podem ser infectadas pelo T. cruzi,
estando o Homo sapiens sapiens incluído neste
último grupo24. Tais espécies são essenciais para
a perpetuação da entidade mórbida25, apresen-
tando processos infecciosos de variável gravida-
de – usualmente, mais benigna para os reserva-
tórios silvestres do que para os domésticos20.
As aves, os répteis e os anfíbios são vertebra-
dos naturalmente resistentes à infecção pelo he-
moflagelado; todavia, esses animais – especial-
mente as aves – podem desempenhar significati-
vo papel em alguns ecótopos, por servirem de
fonte alimentar para os vetores3.
Quadro 2. Reservatórios silvestres do T. cruzi26-29.
Ordem
Espécies
Carnivora
Cerdocyon thous
Eira barbara
Nasua nasua
Chiroptera
Carollia perspicillata
Desmodus rotundus
Glossophaga soricina
Phyllostomus hastatus
Edentata
Dasypus novemcintus
Marsupialia Didelphis albiventris
Didelphis marsupialis
Primates
Aloutta spp
Ateles spp
Cacajao calvus
Callicebus personatus nigrifons
Callithrix spp
Cebus spp
Leontopithecus spp
Saguinus spp
Saimiri spp
Rodentia
Akodon spp
Coendu spp
Dasyprocta spp
Sciurus spp
Reservatórios silvestres
Os principais reservatórios do T. cruzi, no ci-
clo silvestre, são apresentados no Quadro 226-29.
De modo similar ao descrito para os triato-
míneos, deve-se destacar a possibilidade de infec-
ção dos reservatórios selvagíneos por outros pro-
tozoários, o que eventualmente pode gerar equí-
voco. Pode-se citar, em relação aos primatas do
Novo Mundo, a existência de pelo menos cinco
espécies do gênero Trypanosoma capazes de infec-
tá-los, incluindo Trypanosoma cruzi, Trypanoso-
ma lambrechti, Trypanosoma rangeli, Trypanoso-
ma minasense e Trypanosoma saimiri30,31. No que
diz respeito às espécies do Velho Mundo (Macaca
fascicularis, Macaca mulatta, Macaca cyclopis,
Nycticebus concang, Hylobates pileatus), foi des-
crita uma forma pouco distinta de Trypanossoma
cruzi que, para muitos autores, pode ser o Trypa-
nossoma conorrhini, microrganismo encontrado
em roedores na África32.
Reservatórios domésticos
Neste domínio, a espécie de maior importân-
cia é H. sapiens sapiens (homem), tendo em vista
sua expectativa média de vida – cerca de 60-70
anos – e pela manutenção da parasitemia, ainda
que baixa, por longos períodos. Este é infectado
pelo protozoário, amiúde, no interior dos domi-
cílios colonizados por triatomíneos ou por oca-
sião do desmatamento, em decorrência do dese-
quilíbrio ecológico promovido (p. ex., em conse-
quência à invasão dos acampamentos por veto-
res, os quais partem em busca de abrigo)11,12.
Outros animais também atuam como reser-
vatórios domésticos e peridomésticos do T. cru-
zi, tais como o cão (Canis familiaris) e o gato
(Felis cattus) – vertebrados mais importantes,
após o homem –, a cabra (Capra hyrcus), a ove-
lha (Ovis aries), o coelho (Oryctolagus cunicu-
lis), a cobaia (Cavia porcellu) e o rato (Rattus
novergicus)3,33.
Principais ecossistemas
da moléstia de Chagas
A infecção por T. cruzi se perpetua em díspares
nichos ecológicos, organizando-se em significativa
variedade de ambientes, com destaque para os ecó-
topos silvestres e domiciliares/peridomiciliares34.
Ecótopos silvestres
Acredita-se que, ancestralmente, o ambiente
silvícola representava o único ecossistema do T.
681
cruzi, como resultado da movimentação do pro-
tozoário entre diferentes reservatórios naturais –
especialmente marsupiais, roedores e edentados
– e triatomíneos, em diferentes ecótopos25. Nesse
domínio, propõe-se como significativa a trans-
missão por via oral do protista, havendo infecção
dos reservatórios no momento da alimentação,
como consequência da ingestão de triatomíneos
ou de animais de menor porte, infectados35.
Os focos naturais da tripanossomíase – nos
quais ocorreria o seu ciclo selvático – situam-se
em distintos ambientes25,26,36:
(1) Troncos das grandes árvores nas quais
são abrigos de marsupiais (Didelphis spp., Mar-
mosa spp., Caluromys), roedores, primatas (Ca-
litriquídeos) e carnívoros, onde o triatomídeo
Triatoma sordida alimenta-se do sangue desses
mamíferos;
(2) Copas das grandes árvores – por exem-
plo, palmeiras –, com significativa participação
de aves, marsupiais (Didelphis spp., Marmosa
spp., Caluromys) e roedores – com registro do
envolvimento de Panstrongylus megistus;
(3) Vegetação de cerrados e campos com en-
volvimento de marsupiais (Didelphis albiventris,
Marmosa pusilla), carnívoros (Dusyceon griseus,
Conepatus chinga, Galictis cuja, Herpailurus ya-
guaroundi), tatu (Tolypeutes mataco) e roedores
(Microcavia australis e Pediolagua salinicola), com
relato de Triatoma sordida e Triatoma infestans
associados a esses animais selvagens;
(4) Ambientes subterrâneos (grutas, bura-
cos no solo, sob pedras), destacando-se mamí-
feros – como Dasypus novemcinctus (tatu) – e
espécies de triatomíneos (mormente Panstron-
gylus geniculatus);
(5) Rios e lagos, nos quais tomam parte Eira
barbara (irara), mamífero com hábitos aquáti-
cos, cuja infecção natural já foi descrita.
A despeito de se reconhecer alguns aspectos
do comportamento selvagino da infecção por T.
cruzi, muitos elementos permanecem por ser es-
clarecidos, reconhecendo-se que, em algumas re-
giões, são praticamente ignoradas as característi-
cas ecológicas da moléstia de Chagas37.
Ecótopos domiciliares e peridomiciliares
A transmissão do T. cruzi ocorre, igualmen-
te, em áreas peridomésticas e domésticas, as quais
foram estabelecidas a partir de modificações dos
hábitos humanos e animais. Ato contínuo à in-
vasão desses ecótopos silvestres e construção de
habitações que se tornaram propícias à domici-
liação do vetor, o H. sapiens sapiens entrou em
contato com o T. cruzi, havendo, assim, o surgi-
mento da enfermidade humana38.
Não são muitas as espécies domiciliadas –
em torno de oito – entre as mais de 120 conheci-
das. Ainda assim, há marcante coincidência en-
tre a endemicidade da tripanossomíase america-
na e o grau de domiciliação dos triatomíneos.
Nas regiões em que a domiciliação é significativa
– como, por exemplo, em áreas da Bolívia e do
Equador3 –, os vetores vivem preferencialmente
em casas de “pau-a-pique”, as quais possuem pa-
redes com frestas utilizadas pelos artrópodos
como esconderijo. São também encontrados, pe-
ridomiciliarmente, em galinheiros, chiqueiros, es-
tábulos e casas de madeira. São insetos notur-
nos, saindo tanto o macho quanto a fêmea e nin-
fas, à noite, para o repasto sanguíneo. A despeito
dessas conjecturas, recentes investigações reali-
zadas a partir da caracterização de zimodemas
silvestres e domiciliares demonstraram a circu-
lação em condições selváticas dos zimodemas 1 e
3, enquanto no ciclo doméstico detectou-se o zi-
modema 2, o que se torna um problema para a
explicação desta continuidade entre os ciclos39,40.
A questão ambiental: ecologia e saúde
A questão ambiental – a qual tem como cerne os
debates acerca da relação homem/ambiente –
emerge ao longo do século XX com a existência de
duas correntes de pensamento – preservacionis-
tas e conservacionistas –, as quais perpetuam os
debates até a atualidade41,42. Os preservacionistas
defendem que as belezas naturais devem perma-
necer intactas, não sendo alteradas por ações an-
trópicas, entendendo-se por preservação a prote-
ção a longo prazo das espécies, habitats e ecossis-
temas. Já os conservacionistas percebem a natu-
reza de forma mais sustentável, apresentando uma
série de dados que indicam que o ambiente pode
ser compartilhado pelo homem tendo em vista as
suas necessidades, desde que se incorporem, às
ações, os princípios do desenvolvimento susten-
tável. Propõem, de fato, o gerenciamento inteli-
gente das terras e a utilização criteriosa dos recur-
sos naturais de modo a gerar fontes de riqueza -
articulação entre economia e ecologia, ou seja, a
utilização racional dos recursos naturais renová-
veis e não renováveis, objetivando produzir o
maior benefício sustentado para as gerações
atuais, mantendo suas potencialidades para sa-
tisfazer as necessidades das gerações futuras.
Seguindo a corrente conservacionista e como
uma tentativa de consolidar as ações governa-
682
mentais em prol do ambiente e dos direitos hu-
manos, foi assinada a Agenda 21 na Conferência
Rio-9242. Nesse documento, foram traçadas as
diretrizes sobre a forma segundo a qual deveri-
am ser conduzidas as discussões acerca das ques-
tões ambientais, resgatando a noção de desen-
volvimento sustentável, proposta inicialmente no
Relatório Brundtland, em 1987. Dentre os prin-
cípios norteadores do desenvolvimento susten-
tável, importa destacar duas de suas concepções
básicas:
(1) atendimento às necessidades do presente
sem comprometimento da possibilidade de as
gerações futuras atenderem às suas próprias ne-
cessidades;
(2) requisição da participação dos cidadãos
nos processos de tomada de decisão, na solução
de problemas de ordem social, gerando um sis-
tema econômico que seja confiável e constante.
Compondo a discussão político-econômica
da questão ambiental, o mundo científico, re-
presentado pela Ecologia, vem apresentando uma
série de indícios43,44, indicando que as atuações
locais podem ter – e têm – resultados globais,
interferindo assim nos padrões climáticos e ecos-
sistêmicos do planeta Terra. Os desequílibrios
ecológicos geram problemas de toda sorte, den-
tre os quais a propagação de espécies animais
que são causadoras de moléstias humanas.
Particularmente no caso da moléstia de Cha-
gas, percebe-se que o desmatamento da Floresta
Amazônica está reduzindo habitats onde os pre-
dadores naturais do vetor vivem, havendo, as-
sim, uma ausência do predador e o consequente
aumento da população de triatomíneos. Ademais,
há a possibilidade da geração de novos ambien-
tes, nos quais o inseto pode ser ecologicamente
mais eficiente. Nestes termos, reconhece-se que a
presença do barbeiro nas cidades está diretamente
ligada a uma mudança de hábito do inseto, causa-
da pelo aumento do desmatamento das florestas.
[...] Se o contágio foi através das picadas, é a apro-
ximação do barbeiro com as casas que preocupa, já
que ele vive mais nas matas45.
Estudos sanitários e biogeográficos indicam
que os triatomíneos possuem padrões de distri-
buição decorrentes da história natural desses
protozoários46. Para tal entendimento, faz-se
necessário que a discussão do tema esteja basea-
da em uma visão mais holística do ambiente –
reconhecendo-se sua totalidade e sua interdepen-
dência –, já que pode ser observado em distintos
momentos que a moléstia de Chagas, tal qual
outras doenças transmissíveis, é capaz de evoluir
e se adaptar a novas condições ecológicas. Dessa
forma, nos debates que envolvem temáticas re-
lacionadas às questões ambientais e à saúde pú-
blica, torna-se imprescindível a discussão de for-
ma mais abrangente – estabelecendo como pon-
to de referência o ecossistema –, revendo-se a
tradicional perspectiva antropocêntrica.
Luta antivetorial:
uma crítica ecológica (profunda)
A tripanossomíase americana é considerada, tra-
dicionalmente, uma moléstia intimamente rela-
cionada à miséria e à desigualdade social, tal qual
denunciado por Carlos Chagas ainda no alvore-
cer do século passado47. Em grande medida, as
profundas iniquidades sociossanitárias presen-
tes na sociedade brasileira – quer entre regiões,
quer entre pessoas de uma mesma região ou
município – são determinadas sócio-historica-
mente48. De fato, as condições de subdesenvolvi-
mento dos países latino-americanos, capazes de
impor a parcela significativa dos homens e mu-
lheres dessas nações as mais espúrias condições
de vida, estiveram entre os principais determi-
nantes da grave situação ecoepidemiológica pela
qual a doença se “arrastou” ao longo de seus cem
anos de reconhecimento.
Tais foram os pressupostos que facultaram a
compreensão, por parte da comunidade científica
e da classe política mundiais, de que a guerra con-
tra o mal de Chagas deveria ser uma batalha sem
trégua pela melhoria das condições de vida das
populações atingidas, mas, igualmente, contra os
triatomíneos – inimigos que precisariam ser venci-
dos... –, sob pena de mais pessoas engrossarem os
filões de vítimas da doença. Para isto, tem sido
amplamente empregada, desde a década de 1940, a
aplicação de inseticidas nos domicílios e peridomi-
cílios, os quais atuam a partir de sua ação residual
no sistema nervoso dos reduvídeos, especialmente
nas ninfas (não atingem diretamente os ovos)49.
Os produtos já utilizados incluem o BHC (hexa-
clorociclohexano), o Dieldrin, o Propoxur, o Ma-
lathion, os carbamatos – todos estes proibidos e
proscritos em vários países – e os piretroides de
síntese – principais produtos empregados atual-
mente –, tais como alfa-cipermetrina, beta-ciflu-
trina, ciflutrina, cipermetrina, deltametrina e lam-
bda-cialotrina50. Este conjunto de ações – a luta
antivetorial – foi um dos responsáveis pela subs-
tantiva redução do número de casos nos vários
países da América (Gráfico 1)3.
Ainda assim, a luta antivetorial está longe de
ser a melhor medida para que pessoas deixem de
683
ser infectadas pelo T. cruzi, especialmente ao se
reconhecer que o mal de Chagas não é apenas
uma condição mórbida originada da pobreza e
da desigualdade, mas sim uma enfermidade que
possui tônicas raízes no desequilíbrio ambiental,
ou seja: a moléstia de Chagas é, antes de tudo,
uma doença ecológica. Algumas observações que
ratificam tal posicionamento incluem:
(1) a crescente resistência dos triatomíneos
aos inseticidas – como deltametrina, cipermetri-
na, beta-ciflutrina e lambda-cialotrina –, descri-
ta em diferentes regiões da América Latina51,52, o
que, na metáfora belicista vigente, representaria
uma genuína reorganização das defesas triato-
mínicas;
(2) o grande problema representado pelo
controle no peridomicílio, área na qual o tradicio-
nal uso de inseticidas tem pouca eficácia, pelo
fato de a ação residual ser expressivamente infe-
rior à descrita no domicílio; acrescente-se a isto o
impacto ambiental e individual em termos de
saúde humana e animal, em decorrência do uso
desses venenos49;
(3) a ocupação de áreas consideradas livres
do T. infestans pelo Triatoma braziliensis em re-
giões do Brasil – por exemplo, na área compre-
10% 9,7
5 4,8
2,4
1%
0,1%
6,6
5,4
3,9
1,9
1,2 1
0,4
0,9
0,3
0,2
0,1
0,1
0%
1980
1985
1990
1995
2000
Argentina (18 anos)
Uruguai (< 12 anos)
Brasil (0-7 anos)
Paraguai (18 anos)
Chile (< 4 anos)
Gráfico 1. Tendência na redução da incidência de
infecção por Trypanosoma cruzi nos países da
América Latina. Fonte: WHO/OMS. World Health
Organization. Control of Chagas disease. Second
report of the WHO Expert Committee. Technical
Report Series Geneva, 2002.
endida pelas divisas dos estados de Tocantins,
Piauí e Bahia –, bem como o ressurgimento do
T. infestans na Argentina;
(4) as questões relacionadas aos ciclos selvá-
ticos da tripanossomíase americana, como no
caso da Amazônia, localidade que vem sendo in-
vestigada, mais amiúde, nas últimas décadas, em
relação às características da infecção pelo T. cru-
zi, cabendo destaque à baixa morbidade do pro-
cesso infeccioso e à ocorrência de surtos de aqui-
sição do protozoário por via oral; nesta região,
tem-se descrito a ocorrência de inúmeros ani-
mais que participam como vetores e reservató-
rios (Quadro 3). Neste contexto, uma questão se
impõe com força: seria plausível a realização de
uma luta antivetorial – por exemplo, controle
químico ou biológico de triatomíneos silvestres
– nesses ecótopos naturais?
Com efeito, torna-se premente a revisão da
forma segundo a qual se encaram as relações
entre os diferentes elementos da teia ecoepidemi-
ológica da tripanossomíase americana, poden-
do-se utilizar como referencial para pensar/agir
a Ecologia Profunda, proposta em 1973 pelo fi-
lósofo norueguês Arne Naess14 – incluído na tra-
dição de pensamento ecológico-filosófico de Hen-
ry Thoreau e de Aldo Leopold –, como alternati-
va ao modelo hegemônico de vigilância epidemi-
ológica e controle das doenças (Quadro 4)53.
Neste domínio, para Capra: a ecologia profunda
não separa seres humanos – ou qualquer outra
coisa – do meio ambiente natural. Ela vê o mundo
não como uma coleção de objetos isolados, mas
como uma rede de fenômenos que são fundamen-
talmente interconectados e são interdependentes.
A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco
de todos os seres vivos e concebe os seres humanos
apenas como um fio particular na teia da vida15.
Em última análise, a ecologia profunda con-
vida a que sejam pensadas e construídas novas
relações entre os seres que habitam o planeta,
por entender que há genuína igualdade entre as
espécies e que a natureza tem um valor intrínse-
co, e não apenas instrumental (Quadro 3).
Tais ideias impõem que sejam pensadas ino-
vadoras modalidades para o controle da molés-
tia de Chagas, as quais necessariamente terão que
abandonar a ideia de que os triatomíneos são os
inimigos que necessitam ser vencidos e aniquila-
dos. Esta é, em última análise, uma genuína ques-
tão moral – mais do que técnica e/ou política –
tornando premente a introdução, nesses deba-
tes, dos referenciais teóricos da ética e da bioéti-
ca54,55, quiçá como formulado por Albert Schweit-
zer: Uma ética que nos obrigue somente a preocu-
684
par-nos com os homens e a sociedade não pode ter
esta significação. Somente aquela que é universal e
nos obriga a cuidar de todos os seres nos põe de
verdade em contato com o Universo e a vontade
nele manifestada56.
Quadro 3. Principais espécies envolvidas nos
ecossistemas amazônicas da moléstia de Chagas.
Triatomíneos
Eratyrus mucronatus
Panstrongylus geniculatus
Microtriatoma trinidadensis
Panstrongylus lignarius
Panstrongylus rufotuberculatus
Rhodnius brethesi
Rhodnius neglectus
Rhodnius paraensis
Rhodnius pictipes
Rhodnius robustus
Mamíferos
Agouti paca
Caluromys spp
Carollia perspicillata
Choeroniscus minor
Coendou spp
Cyclopes didactylus
Dasyprocta spp
Dasypus novemcinctus
Didelphis marsupialis
Echimys chrysurus
Eira barbara
Glossophaga soricina
Homo sapiens sapiens
Loncophylla mordax
Marmosa cinerea
Metachirus nudicaudatus
Molossus ater
Molossus molossus
Monodelphis brevicaudata
Mycronycteris megalotis
Nasua nausa [cf.]
Nectomys squamipes
Noctilio leporinus
Oryzomys capito
Philander opossum
Phyllostomus elongatus
Phyllostomus hastatus
Proechimys cayannensis
Rattus rattus
Saccopteryx bilineata
Saguinus midas niger
Saimiri sciureus
Sciurus spp
Tamandua tetradactyla
Fonte: Siqueira-Batista et al.12.
Como agir neste contexto? Eis a indagação
ética por excelência. Pensar alternativas para o
controle da moléstia de Chagas, no âmago das
concepções da ecologia profunda, pode apontar
saídas para os anos vindouros. Nestes termos, a
orientação de investigações científicas para o de-
senvolvimento de modalidades vanguarda para
a profilaxia e o controle – por exemplo, projetos
para investigação (1) do impacto do desmata-
mento; (2) das ações em educação ambiental; e
(3) de tecnologia em engenharia, de modo a tor-
nar as moradias e o peridomicílio menos habitá-
veis pelos triatomíneos – seria uma medida bas-
tante desejável. Evidentemente, não se trata de
oferecer respostas – o que, no melhor espírito
filosófico, foge do escopo do presente ensaio,
muito mais dirigido à apresentação do proble-
ma –, mas apenas de se propor “linhas de força”
para se pensar a cosmovisão – beligerante – na
qual se inscreve a ideia de luta antivetorial.
Quadro 4. Comparação entre a visão de mundo
hegemônica e a ecologia profunda.
Visão de mundo
hegemônica
Ecologia profunda
Domínio da Natureza Harmonia com a
Natureza
Ambiente natural
como recurso para os
seres humanos
Toda a Natureza tem
valor intrínseco
Seres humanos são
superiores aos demais
seres vivos
Igualdade entre
as diferentes espécies
Crescimento
Objetivos materiais a
econômico e
serviço de objetivos
material como base para maiores de
o crescimento humano autorrealização
Crença em amplas
reservas de recursos
Planeta tem recursos
limitados
Progresso e soluções
baseados em alta
tecnologia
Tecnologia apropriada
e ciência não dominante
Consumismo
Fazendo com o
necessário e reciclando
Comunidade
nacional centralizada
Biorregiões
e reconhecimento
de tradições das minorias
Fonte: Goldim53.
685
Ponderações finais
Transformar, de forma premente e radical, os
debates sobre a epidemiologia, a ecologia, a pre-
venção e o controle da infecção chagásica, per-
mitindo que a coletividade possa se tornar, final-
mente, responsável pelo seu entorno – vertebra-
dos, T. cruzi e triatomíneos –, quiçá como espe-
rado por Albert Schweitzer, é tarefa urgente e de
responsabilidade de todos os agentes morais,
racionais e autônomos, incluindo-se os diferen-
tes setores sociais – sociedade civil organizada,
profissionais de saúde, gestores, comunidade ci-
entífica, classe política, membros dos Conselhos
de Saúde nos três níveis de governo. O que está
em jogo é um expressivo número de vidas – bas-
ta observar, conforme demonstrado, o quanti-
tativo de espécies partícipes nos ecossistemas en-
volvidos na moléstia de Chagas –, as quais não
podem ser tratadas meramente como meio para
manutenção da saúde humana, estabelecendo-
se, quiçá, uma ampliação do imperativo kantia-
no: em vez de “Trata a humanidade, na tua pes-
soa ou de outros, sempre como um fim e nunca
somente como um mero meio”, reescrever: “Tra-
ta todos os seres, sempre como um fim e nunca
somente como um mero meio”57.
Com base nessas considerações, deve-se tra-
balhar para que as novas – ou renovadas – dis-
cussões sobre a ecopidemiologia da tripanosso-
mosíase americana não perca de vista os elemen-
tos do debate moral contemporâneo – tais como
a ética do cuidado58, a bioética da proteção59 e a
bioética para todos os seres (ou bioética quânti-
ca)60 –, os quais têm enfatizado, em grande me-
dida, a necessidade de se reconsiderar a compai-
xão (laica) como um dos pontos fundamentais
para a construção de um mundo mais justo,
equânime e fraterno.
Colaboradores
R Siqueira-Batista, AP Gomes, G Rôças, RMM
Cotta, ECN Rubião e A Pissinatti participaram
igualmente de todas as etapas da elaboração do
artigo.
686
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Artigo apresentado em 03/07/2007
Aprovado em 07/04/2008
Versão final apresentada em 12/11/2008