ECOLOGIA PROFUNDA: O DESPERTAR PARA UMA EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMPLEXA
Submetido em 03/05/2010.
Aprovado em 09/08/2011.
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ECOLOGIA PROFUNDA: O DESPERTAR PARA UMA
EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMPLEXA
Patrícia Braga Lovatto1
Shirley Nascimento Altemburg2
Hélvio Casalinho3
Eduardo Alexis Lobo4
"É escuro e frio o mundo em que ficamos quando não abrimos os olhos íntimos do espírito para a flama íntima
da natureza". (Gustav Fechner em Nana, o espírito das plantas, 1848)
RESUMO
Diante da crise ambiental contemporânea, a Educação Ambiental surge
como instrumento para o enfrentamento e a minimização dos impactos da
civilização humana sobre os recursos naturais. Assim, na maioria dos trabalhos
desenvolvidos, o que se vê é a predominância do pensamento ambientalista,
muitas vezes desprovido da visão ecossistêmica. O discurso limita-se à necessidade
de preservação dos recursos relacionados a um desenvolvimento distorcido e
acrítico. Pouca atenção é dispensada às dimensões da sustentabilidade, sendo o
ambiente tratado como algo à parte do indivíduo, mera parcela exterior do corpo
humano. Essa perspectiva demonstra a fragilidade desse discurso diante de uma
efetiva conscientização, revelando a desordem das ações que ocorrem dentro de
um processo ecológico determinista, com pouca atenção à esfera educativa,
relacionada aos fatores cognitivos, éticos e culturais. Dentro desses aspectos, a
Educação Ambiental Complexa sugere o autoconhecimento, a sensibilização e a
ação ambiental na busca de um desenvolvimento que considere a qualidade de
vida integral, em detrimento da variável econômica. Nesse sentido, a ecologia
profunda atua como agente impulsionador no processo de despertar para uma
educação ambiental que seja legítima à sustentabilidade e por isso complexa, pois
auxilia a percepção humana à visão integrativa e dependente entre todos os seres,
unificando-os para a vida.
Palavras-chave: Ecologia, Percepção, Desenvolvimento.
1 Bióloga, Mestre em Desenvolvimento Regional, Doutoranda do Programa de Pós Graduação em
Sistemas de Produção Agrícola Familiar da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel Universidade
Federal de Pelotas UFPel - Bolsista CNPq. E-mail: biolovatto@yahoo.com.br
2 Tecnóloga Ambiental, Especialista em Educação Ambiental, Mestranda do Programa de Pós
Graduação em Sistemas de Produção Agrícola Familiar da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel
Universidade Federal de Pelotas UFPel. E-mail: shi_nascimento@yahoo.com.br
3 Eng. Agrônomo, Doutor em Ciências do Solo, Professor Titular da Faculdade de Agronomia Eliseu
Maciel FAEM/UFPel. E-mail: hcasalinho@terra.com.br
4 Biólogo, Doutor em Ciências, Professor Titular da Universidade de Santa Cruz do Sul UNISC. E-
mail: lobo@unisc.br
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INTRODUÇÃO À PROBLEMÁTICA AMBIENTAL
Conforme avançamos no novo século, maiores se tornam as preocupações
com o ambiente na medida em que inúmeros problemas globais são anunciados de
maneira alarmante e assustadora. A biosfera declara-se em crise e junto dela a
civilização humana que até então vem se esforçandopara que as limitações
planetárias se tornem irreversíveis.
Movido pelo ímpeto de domínio sobre a Natureza, o homem desencadeou
uma série de processos que resultaram, dentre outros, na desertificação, na
degradação da fertilidade do solo, na destruição da camada de ozônio, na poluição
dos ecossistemas, no desaparecimento de espécies animais e vegetais, na
concentração elevada de gases tóxicos na atmosfera e nas alterações climáticas,
todos esses processos acompanhados e agravados pelo crescimento exponencial
da população humana.
No tocante às evidências de escassez e deteriorização, pouco tem sido feito
no intuito de atacar a raiz de todos esses problemas. A civilização parece
permanecer cega diante da ameaça à sua própria existência, e continua gerando e
educando crianças doutrinadas sob os mesmos valores. Sim, o que vivemos é uma
crise existencial: acorrentados sob o nosso próprio desejo de poder, privamo-nos
da liberdade4 minando o alicerce da vida na terra. Aprendemos que somos topo de
cadeia, pois a nós foi concedida a racionalidade, a capacidade de submeter todas
as outras formas de vida à nossa vontade.
Apesar das expectativas catastróficas, continuamos onipotentes diante do
papel autoritário que nos concedemos, apreendidos com a ideia de sermos a
imagem e semelhança de Deus, fazendo com que a superficialidade interpretativa
e a motivação ideológica dessa crença, desse lugar às nossas inconsequências nos
tornando a única espécie capaz de destruir as bases de sua própria sobrevivência.
Conforme Boff (2001), antigamente o homem reverenciava a terra como
mãe generosa, como elemento feminino venerado e respeitado, sendo que
paulatinamente essa visão foi sofrendo profundas modificações com o avanço da
ciência e fortalecimento do modelo patriarcal. Nesse contexto o feminino passou a
ser algo considerado inferior, de menor valia a ser dominado e usufruído.
De acordo com Woolger & Woolger (2000), sofremos uma grande perda
com a chegada do cristianismo, que restringiu a pluralidade das imagens divinas a
um pai, reforçando e contribuindo para legitimar a dominação patriarcal que
4 A liberdade supõe determinismos e aleatoriedades. Mas essas são apenas as primeiras condições
externas da liberdade, que demanda também essas condições internas fundamentais: aparelho
neurocerebral capaz de representar uma situação, elaborar hipóteses e estratégias. Enfim, é
necessário que haja possibilidades de escolha, ou seja, as condições externas que permitem a
escolha e as condições internas que permitem concebê-la. Eis a situação paradoxal do ser humano,
que é e pode ser o mais autônomo e o mais subjugado; as subjugações que lhe são impostas
inibem ou suprimem sua liberdade. Mas sua autonomia só se pode afirmar e fazer emergir suas
liberdades nas e pelas dependências (MORIN, 2005, p. 287).
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vigorava entre os gregos e hebreus. Segundo Starhawk (2003), historiadores da
religião concordam que nas épocas da história da humanidade, em que a Grande
Mãe era adorada, os seres humanos viviam em maior harmonia consigo mesmos e
com a própria força vital. Conseguimos vagamente pressentir que houve há muito
tempo uma unidade primordial, quando uma Mãe Terra e um Pai Espírito
desfrutavam de uma união feliz e harmoniosa. Mas, esse paraíso foi perdido e,
afastados e alienados, fomos forçados a engolir a amorosa propaganda de um Pai
culpado, porém todo poderoso. A Mãe foi destituída de seus poderes; seus cultos
foram dispersados, divididos, abandonados e perseguidos.
Nesse sentido, submetendo a problemática ambiental ao papel
desempenhado pela Educação, convém ressaltar que a questão central da crise
está vinculada à esfera ética, a qual do ponto de vista ecológico pode ser alterada
a partir de uma mudança cultural urgente que permitirá optar por outras formas
de desenvolvimento.
Para Boff (2003), é preciso refletir com seriedade a responsabilidade sobre
três problemas que suscitam a urgência de uma ética mundial: a crise social,
provocada pelo agravamento da pobreza, gerada pela acumulação de riquezas,
que contraditoriamente aprofunda o fosso entre ricos e pobres; a crise do sistema
de trabalho, deflagrada pelo desemprego estrutural, fruto das mudanças
tecnológicas que geram um imenso exército de excluídos em todas as sociedades
mundiais; e a crise ecológica, provocada pela atividade humana irresponsável, que
ameaça a sustentabilidade do planeta com o desequilíbrio ecológico, criando o
princípio da autodestruição. Daí a crescente importância das questões éticas e
ecológicas envolvendo a relação homem-natureza.
Conforme Layrargues (2006), a educação ambiental, desde seus primórdios,
foi concebida tecendo relações com a mudança cultural, tornando-se vetor
privilegiado para se atingir a mudança ambiental. Essa subtração da função
político-ideológica de reprodução das condições sociais dentro da educação
ambiental, à semelhança da subtração da verdade da ecologia política na
comunidade ambientalista, provavelmente teve a sua influência determinada pela
Ecologia Profunda5 e pelo ambientalismo pós-materialista, que concebem a crise
ambiental como uma crise de valores civilizatórios, pois seriam os paradigmas
culturais e a visão de mundo moderna, os elementos fundamentais da ruptura na
relação humana com a Natureza. Não se trata apenas de estabelecer uma relação
entre os humanos e a natureza, mas dos humanos entre si e desses com a
natureza.
Segundo Lovatto & Previdi (2008), verifica-se a inconsistência de qualquer
ambição de sustentabilidade social e ambiental, considerando o caráter intrínseco
desses aspectos, formulada em bases humanas racionalmente hierarquizadas, pois
5 Segundo Capra (2006) a expressão ecologia profunda foi criada durante a década de 1970 pelo
filósofo norueguês Arne Naess, em oposição ao que ele chama de "ecologia superficial" ou
“ecologia rasa” – isto é, a visão convencional segundo a qual o meio ambiente deve ser preservado
apenas por causa da sua importância para o ser humano.
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é contraditória a ideia de respeito ambiental quando não são cultivados valores
mínimos de igualdade humana.
A educação ambiental consiste, portanto, em uma modalidade de ensino
que necessariamente se vincula à dupla função da educação, qual seja a função
moral de socialização humana e a função ideológica de reprodução das condições
sociais.
Assim, numa análise atenta aos problemas ambientais atuais, percebe-se,
do ponto de vista da Ecologia Profunda, que sua ocorrência não se dá de forma
isolada: possui um caráter sistêmico, estando a relação causa e efeito interligada e
interdependente entre si e por outros fatores. A dimensão ambiental está
atualmente condicionada às dimensões culturais, sociais, econômicas e políticas. A
crise ambiental é, portanto, a consequência de um conjunto de ações danosas que
o homem vem causando ao longo de sua existência em nome do progresso,
compreendido sob um arsenal de valores que abrangem as estruturas ideológicas.
Para Sirvinskas (2005), a crise ambiental surge entre a Idade Média e Moderna,
especialmente no período da Revolução Industrial, onde a dominação da natureza
irá conduzir ao ápice do capitalismo.
Hösle (1991) disserta sobre a casuística filosófica da crise ambiental,
identificando com principais causas, a redução da natureza à matéria prima; o
surgimento de uma civilização científica e tecnológica que se funda, sobretudo na
perda da ligação ontológica entre sujeito e objeto; as grandes tendências
filosóficas do século XX que agiram como inibidoras da formação de uma
consciência, privilegiando a racionalidade instrumental, e por último o primado da
dimensão econômica apresentada pela economia capitalista industrial ocidental
como paradigma para as relações sociais internacionais que faz com que apenas
um terço da população global consuma mais que os outros dois terços que
sobrevivem em condições subumanas.
A degradação ambiental é resultado da rápida expansão capitalista
simultânea ao crescimento populacional, que acaba levando ao colapso as
comunidades locais e gerando violência étnica e tribal, desrespeitando saberes e
valores por muito arraigados a essas populações, tão desprezados no cenário atual.
Para Odum (1997), o homem atua no seu ambiente como um parasita, tomando o
que ele deseja com pouca atenção à saúde de seu hospedeiro, isto é, do sistema
de sustentação da sua vida.
Segundo Capra (2006), aos desdobramentos da crise ambiental se
entrelaçam os aspectos sociais e econômicos estabelecendo um padrão de teia,
resultado da interdependência entre esses fatores, no qual as ações e reações
repercutem nos diferentes níveis da sociedade.
Nesse contexto, a problemática ambiental precisa ser interpretada como
resultado de diferentes fases de uma única crise, a crise de percepção. Ela resulta
do fato de que a maioria de nós, incluindo as instituições sociais e de pesquisa,
concorda com os conceitos de uma visão de mundo retrógrada, uma visão
fragmentada que mostra-se inadequada para gestão de um planeta super-
povoado e globalmente interligado.
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Há soluções para os principais problemas de nosso tempo, algumas delas até
mesmo simples. Requerem, no entanto uma mudança radical em nossas
percepções, no nosso pensamento e nos nossos valores. E, de fato, estamos agora
no princípio dessa mudança fundamental de visão de mundo na ciência e na
sociedade, uma mudança de paradigma tão radical como foi a revolução
copernicana (CAPRA, 2006, p.23). Uma das mais importantes consequências
filosóficas da nova compreensão da vida é uma concepção inaudita da natureza da
mente e da consciência que finalmente supera o dualismo cartesiano entre mente
e matéria.
A crise ambiental, portanto, não remete apenas aos aspectos físicos,
biológicos e químicos das alterações do ambiente. O colapso vai além da natureza
externa: trata-se de uma crise civilizatória contemporânea; uma crise de valores,
que é cultural e espiritual. A degradação ambiental é a consequência do conflito
interno que contagia a espécie humana, a qual se afasta de si na busca pelo poder
e pela dominação. Por falta de sensibilidade à dor, a civilização automutila-se
lentamente sem perceber.
ALÉM DA RAZÃO: UM NOVO OLHAR SOBRE A HUMANIDADE
Homem vem de húmus, que significa terra fecunda. Adão,
Adam em hebraico, “criatura humana feita de terra”,
provém de Adamá, que quer dizer Mãe-Terra. O ser
humano é filho e filha da Mãe-Terra. Ele é a Terra em seu
momento de consciência, de responsabilidade e de amor.
Estas palavras, Homo-humus, Adam-Adamá, já apontam
para a estreita relação do ser humano para com a Terra e
através da Terra para com todo o Universo. É nesta
conexão que devemos buscar a identificação de sua
natureza e de sua missão (Boff, 2006, p 55).
Nos dias atuais, fala-se muito em compreender a dinâmica existente entre o
homem e o meio ao qual está inserido. Entretanto, o modo de análise e a
percepção dos próprios multiplicadores do saber encontram-se forjados, mesmo
que inconscientemente, dentro das velhas premissas utilitaristas geradoras da crise
ambiental e societal. Ora, o próprio conceito de “meio ambiente” é meramente
antropocêntrico e vazio se analisarmos os sistemas a partir da complexidade, onde
nada existe isoladamente, e a espécie humana nada mais é do que uma ínfima
parte do todo integralizado.
Para Lovatto et al. (2010), o conceito de “meio ambiente” demonstra a
externalidade envolvida no termo e o caráter teórico ocidental que exemplifica a
visão cartesiana e por vezes antropocêntrica que exclui o homem da integralidade
da natureza. Os autores, apoiados em referenciais bibliográficos da área, citam
conceitos utilizados na contemporaneidade: Meio Ambiente é o conjunto de todas
as condições e influências externas circundantes, que interagem com um
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organismo, uma população ou uma comunidade (ACIESP, 1997 Glossário de
Ecologia); Meio Ambiente é a soma total das condições externas circundantes no
interior das quais um organismo, uma condição, uma comunidade ou um objeto
existe (ART, 1998 Dicionário de ecologia e termos ambientais); Meio Ambiente
define-se como todo o meio exterior ao organismo que afeta o seu integral
desenvolvimento (GILPIN, 1976 Dictionary of environmental terms)
Nesse sentido, conforme Goldim (2005), no âmbito da Ecologia Profunda,
proposta pelo filósofo Arne Naess, incluído na tradição de pensamento ecológico-
filosófico de Henry David Thoreau, proposto em Walden, e de Aldo Leopold, na
sua Ética da Terra, como alternativa ao modelo hegemônico de pensar o homem
como centro da natureza, os seres humanos não podem ser visualizados à parte da
natureza (Tab. 01).
Conforme Capra (2001), a ecologia profunda ou ecologia espiritual adota
em suas bases a interdependência fundamental de todos os fenômenos: ela vê o
universo não como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de
fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e são interdependentes.
Ela reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres
humanos apenas como um fio particular da teia da vida.
Na busca por essa forma integrada de ver o mundo, o homem depara-se
com as diferentes formas de ver o meio no qual está inserida a espécie humana.
Por exemplo, a palavra oikos (do grego, casa - oikos), que deu origem à ecologia,
sofre variações bastante interessantes: oikeiosis, que tem círculos cada vez mais
específicos de aplicação. Opera, em primeiro lugar, no ambiente de cada um (ética
- ethos), depois no sentido da prole e da família (economia - oikos), da sociedade
e da cidade (política - polis) e finalmente culmina no amor da raça humana
(mundo - kósmos), proporcionando o fundamento para a ética social mais baseada
na natureza do que na convenção (PETERS, 1974, p. 29).
Para uma grande parte dos ecologistas, os caminhos da Ecologia são
figurados por intensas modificações e, assim como toda ciência, lentamente
surgem inéditas maneiras de pensar. Na concepção de Odum (1977-b), na era das
revoluções científicas, como a cibernética ou a ecologia, a humanidade está sendo
levada pela necessidade de descobertas, porque o ser humano e a sua vontade de
modificar a natureza cresceram em taxa maior do que a compreensão que se tem
do ambiente.
Deste modo, segundo Odum (1977-a), é preciso incitar às mudanças, criar
grupos interdisciplinares, ir adiante. Todavia, para saltar adiante, precisamos de
bases teóricas sólidas, que não se resumem em simples tentativas de erros e
acertos. Assim, remete-se novamente à Ecologia Profunda, que de acordo com
Capra (2001) emerge de uma percepção espiritual ou religiosa, vai além da visão
de ecologia inicialmente postulada. A ecologia profunda concebe que o espírito
humano é entendido como o modo de consciência na qual o indivíduo tem uma
sensação de pertinência, de conexidade com o cosmos, ficando claro que a
percepção ecológica é espiritual na sua essência mais profunda.
Por conseguinte, as interações de um organismo vivo vegetal, animal ou
humano com seu ambiente são interações cognitivas. Assim, a vida e a cognição
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tornam-se inseparavelmente ligadas. A mente ou melhor, a atividade mental é
algo imanente à matéria, em todos os níveis de vida. Essa é uma expansão radical
do conceito de cognição e, implicitamente, do conceito de mente. De acordo com
essa nova concepção, a cognição envolve todo o processo da vida inclusive a
percepção, as emoções e o comportamento e nem sequer dependente
necessariamente da existência de um cérebro e de um sistema nervoso (CAPRA,
2006, p. 50)
Assim, a ecologia à luz da Teoria da Cognição, certamente diz respeito a
uma ecologia que está internalizada, vem do espírito, brota da consciência
ecológica que deve vir do respeito por todas as formas de vida, intrínsecas à
existência individual. A ecologia espiritual ou profunda aflora no ser humano o
sentido do “ser”, parte do todo e da necessidade de viver em equilíbrio com este
todo, respeitando todas as formas de vida.
A teoria da cognição, também chamada teoria de Santiago, consiste na
identificação da cognição (processo de conhecimento) com o processo de viver.
Segundo Maturana & Varela (2005), a cognição é a atividade que garante a
autogeração e a autoperpetuação das redes vivas. A atividade organizadora dos
sistemas vivos, em todos os níveis de vida, é uma atividade mental. Nessa teoria a
cognição está intimamente ligada à autopoiese (autogeração das redes vivas) que
é postulada por mudanças estruturais contínuas que conservam o padrão
organizativo em rede. As mudanças constituem a autorrenovação e a criação de
novas estruturas, processo desencadeado pelas inter-relações ambientais que
promovem alteração no comportamento futuro, ou seja, um aprendizado que se
desenvolve continuamente.
A ecologia profunda é capaz de transcender a racionalidade humana na
origem limitada, determinista, autossuficiente e manipuladora de sua concepção.
O reconhecimento do homem como controlador da Natureza, a partir da razão, dá
lugar à fragilidade humana subtraída das demais formas de vida e não vida.
Conforme assinala Capra (2006), a filosofia ocidental sempre concebeu a
capacidade de raciocinar como uma característica exclusivamente humana que nos
distinguiria de todos os animais. Porém, estudos de comunicação com chipanzés
demonstraram de maneiras dramáticas a falácia dessa crença, deixando claro que
entre a vida cognitiva e emocional dos seres humanos e a dos animais só há uma
diferença gradativa e evolucionária. Nas palavras de Lakoff & Johnson (1999),
citados pelo autor: “A razão, mesmo em suas formas mais abstratas, não
transcende a nossa natureza animal, mas faz uso dela. Assim, a razão não é uma
essência que nos separa dos outros animais; antes, coloca-nos no mesmo nível
deles”.
Uma nova racionalidade deixa-se entrever. A antiga racionalidade
procurava apenas pescar a ordem na natureza. Pescavam-se não os peixes, mas as
espinhas. A nova racionalidade, permitindo conceber a organização e a existência,
permitiria ver os peixes e também o mar, ou seja, também aquilo que não pode ser
pescado (MORIN, 2005, p. 275).
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Tabela 01. A visão de mundo hegemônica versus a ecologia profunda
VISÃO DE MUNDO HEGEMÒNICA
ECOLOGIA PROFUNDA
√ Domínio da Natureza
Harmonia com a Natureza
√ Ambiente natural como recurso para os √ Toda a natureza tem valor intrínseco
seres humanos
Seres humanos são superiores aos demais Igualdade entre as diferentes espécies
seres vivos
Crescimento econômico e material como Objetivos materiais a serviço dos
base para o crescimento humano
objetivos maiores da autorrealização
Crença em amplas reservas de recursos Planeta tem recursos limitados
Progresso e soluções baseadas em alta Tecnologia apropriada à ciência não
tecnologia
dominante
Consumismo
Fazendo com o necessário e reciclando
Comunidade nacional centralizada
Biorregiões e reconhecimento de
tradições das minorias
Fonte: Adaptado de Goldim (2005).
A ecologia profunda, na medida em que propõe a reinterpretação e a
recolocação do homem na Natureza, pode ser apontada como alternativa as
melhoras que esperamos no mundo, pois a mudança do comportamento humano
diante da Natureza está condicionada ao reconhecimento da espécie como parte
integral e indissociável dessa.
Faz-se necessário, portanto, romper com o velho olhar utilitário do mundo
para passar a vê-lo através de um novo paradigma. O desafio da complexidade
para Educação Ambiental reside no fato de tornar visível às mútuas relações entre
os fatores ecológicos, sociais, culturais, econômicos, políticos, territoriais e éticos.
O que de fato, segundo Layrargues (2004), não é algo trivial, pois não estamos
acostumados a ver as coisas conectadas, ao contrário, com o paradigma cartesiano
tendemos a fragmentar, separar, dividir, hierarquizar e isso parece natural.
Entretanto, a partir da Ecologia Profunda é possível propor estratégias
metodológicas que permitam alcançar a visão do todo a partir de uma perspectiva
transcendental. A capacidade de manusear e tornar factíveis essas estratégias será
o desafio para a emergência de uma nova percepção.
Para Lovatto et al. (2010), à margem do espectro de mundo cartesiano,
surge uma nova visão complexa e sistêmica com a emergência do paradigma
holístico, dentro do qual a dualidade natureza versus cultura deixa de existir,
dando lugar à complementaridade para conquista do equilíbrio.
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ECOLOGIA PROFUNDA: UMA CHAVE ÀS PORTAS DA PERCEPÇÃO
Conforme mencionado anteriormente, a ecologia profunda atua como
agente transformador do ser, pois a partir de suas práticas o indivíduo consegue
ver o mundo através da janela da realidade, percebendo a importância de cada
parte do todo e do todo como algo maior que a soma das partes. Isso acontece
porque a ecologia profunda aflora de uma forma positiva a percepção ambiental
do indivíduo, manifestando-se a partir de uma tomada de consciência do homem
pelo ambiente, e é expressa pela maneira como ele percebe o ambiente em que
está localizado, aprendendo a integralizá-lo e protegê-lo como extensão do seu
próprio corpo.
De acordo com Del Rio (1991), o termo percepção ambiental inclui não
apenas as percepções biofisiológicas, mas também as imagens que formamos
mentalmente sobre o mundo vivido, as nossas memórias, as experiências, as
predileções, interpretações, atitudes e expectativas.
De acordo com Coimbra (2004), a percepção é o primeiro passo no
processo de aprendizagem e dela dependem aspectos teóricos e aplicações
práticas. Se a percepção é falha, os juízos e raciocínios chegarão a conclusões
falhas e equivocadas. As possíveis falhas com relação à percepção podem ser
expressas das mais diversas maneiras e sob variadas formas. O mesmo sucede
quanto às análises e às práticas relacionadas ao ambiente. Dentro desse contexto,
é necessário trabalhar estrategicamente a percepção ambiental das pessoas
individuais e dos grupos, desenvolvendo a sensibilidade e os juízos corretos com
respeito à realidade ambiental. Esse tipo de percepção consiste no ingrediente
necessário para o exercício da cidadania e da correta gestão do meio ambiente.
Dorin (1984) define percepção como sendo o procedimento pelo qual
compreendemos aquilo que é externo a nós. Para o autor, a percepção consiste no
processo pelo qual tomamos consciência imediata dos objetos e fatos e de suas
relações num dado contexto ambiental.
Nesse contexto, a sociedade tem suas representações sociais sobre o
ambiente que traduzem o modo de ver ou a opinião corrente sobre a realidade
ambiental. Sabe-se que essas representações variam segundo as diferentes regiões
e os diferentes grupos sociais; porém, estão ligadas a cultura dominante.
Para Davidoff (1983), a percepção atua no processo de organizar e
interpretar dados sensoriais recebidos (sensações) para desenvolvermos a
consciência do ambiente que nos cerca e de nós mesmos. A percepção, portanto,
implica interpretação. Nossos sentidos podem ser considerados como nossas
janelas para o mundo.
Dessa forma a autoconsciência, segundo Capra (2005), surgiu na evolução
dos hominídeos, junto com a linguagem, com o pensamento conceitual e com o
mundo social dos relacionamentos organizados e da cultura. Consequentemente, a
compreensão da consciência reflexiva está inexoravelmente ligada à da linguagem
e à do contexto social desta. Porém essa ideia também pode ser considerada sob o
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ponto de vista inverso: a compreensão da realidade social está inexoravelmente
ligada à da consciência coletiva.
Capra (2005) defende a ideia de que os aspectos comportamentais
humanos são coreografados pela face interior (pensamentos, sentimentos) e face
exterior (movimentos corporais) dos indivíduos e considera a percepção como algo
resultante da inter-relação entre os aspectos externos e internos do ser humano,
sugerindo, portanto, a prática de meditação como veículo estimulador da atitude
fenomenológica.
Segundo o autor, ao longo de toda a história, o exame disciplinado das
experiências subjetivas foi empregado no contexto de diferentes tradições
filosóficas e religiosas. (...) “O diálogo entre ciência e cognição e as tradições
contemplativas budistas já começou e seus primeiros resultados indicam que os
dados obtidos através da prática de meditação serão um elemento precioso de
qualquer ciência da consciência que venha a se constituir no futuro” (CAPRA,
2005, p 62).
O fato é que a percepção ambiental precisa ser estimulada e, para que a
mente humana atinja a plenitude no entendimento sobre si e sobre o seu espaço
enquanto espécie, carece tocar as raízes da consciência, através do estímulo à
constituição dos sentidos.
A Educação Ambiental deve, portanto, ir além das atividades práticas e
teóricas; deve empenhar-se urgentemente no exercício da contemplatividade, pois
é imprescindível que vá além daquilo que pode ser visto e tocado. É fundamental,
pois, que se trabalhe a Educação Ambiental a partir da espiritualidade no sentido
original da palavra 6,7.
EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMPLEXA
Assunto amplamente discutido dentro das perspectivas de um modelo
sustentável de desenvolvimento, a educação parecer ser a única alternativa para
esse modelo. Assim, podemos dizer que a educação para a sustentabilidade
compõe, por isso mesmo, um ponto fundamental para que as interações entre os
diversos agrupamentos humanos do século XXI e as suas relações com o
ecossistema global aconteçam de forma a garantir a continuidade da coevolução
entre sociedade e natureza, para não falar em correta gestão de recursos naturais
6 De acordo com Machado (1977), a palavra espírito tem sua raiz etimológica do Latim “spiritus”,
significando “respiração” ou “sopro de vida”. A distinção entre a alma e o espírito somente
ocorreu com a atual terminologia judaico-cristã.
7 A experiência espiritual é uma experiência de que a mente e o corpo estão vivos numa unidade.
Além disso, essa experiência da unidade transcende não só a separação entre mente e corpo, mas
também a separação entre o eu e o mundo. A consciência dominante nesses momentos espirituais
é um reconhecimento profundo da nossa unidade com todas as coisas, uma percepção de que
pertencemos ao universo como um todo (CAPRA, 2005, p. 81).
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o que implicaria a ingênua crença da manutenção do desenvolvimento econômico
desigual para suprir as necessidades de uma coletividade demasiada humana.
Para Piaget (1973), “a principal meta da educação é criar homens que
sejam capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras
gerações já fizeram. Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. A
segunda meta da educação é formar mentes que estejam em condições de criticar,
verificar e não aceitar tudo que a elas se propõe." (PIAGET, 1973, p. 101)
Desse modo, o debate ambientalista generaliza-se num certo consenso, no
que diz respeito à opinião pública, sobre a urgência de conscientizar a população
(como um todo) sobre os problemas ambientais que ameaçam a vida no planeta.
Consequentemente, é valorizado o papel da educação como agente difusor dos
conhecimentos sobre o ambiente e indutor da mudança dos hábitos e
comportamentos considerados predatórios, em hábitos e comportamentos tidos
como compatíveis com a preservação ambiental.
Na perspectiva de uma educação que manifeste uma visão plena sobre as
questões do mundo depara-se com a educação ambiental complexa, pois a mesma
coaduna-se à visão holística, aqui entendida como algo profundo, capaz de
grandes transformações. Por conseguinte, a partir da educação ambiental
complexa inserem-se as mudanças de paradigma, as quais para Kunh (1973)
ocorrem sob a forma de rupturas descontínuas e revolucionárias.
Portanto, a dimensão ambiental na educação insere-se nessa visão de
mundo holística, que percebe o mundo de forma integrada, e não como uma
coleção de partes individuais. Assim, sua prática e seus conceitos compreendem os
problemas socioambientais de forma inclusiva e procura soluciona-los através da
participação dos grupos envolvidos.
Nesse sentido, pode-se perceber que a educação ambiental engloba saberes
sobre a problemática ambiental, bem como sobre a ecologia num processo de
reconhecimento e de transformações do ser e do ambiente. Assim, a educação
deve ser compreendida como uma possibilidade de reconstrução dos sentidos e
significados, englobando a totalidade das nossas vivências e expressões.
Cascino (2000) lembra que, a partir da realização da ECO-92, floresceram
diversos debates acerca das necessidades de um desenvolvimento sustentável, e
do papel da educação nas transformações das mentalidades, lançando um novo
discurso educacional capaz de sensibilizar e proporcionar transformações nas
tradicionais instituições promotoras e difusoras de práticas educativas.
Sobre o mesmo assunto, Pedrini (1997) conclui que a educação ambiental
surgiu da necessidade de minimizar os impactos derivados do uso inadequado dos
bens coletivos planetários em diferentes escalas espaço-temporais.
Tratar a educação por educação ambiental é uma contraposição para algo
existente, como forma de superação, pois a educação ambiental é crítica, porque
compreende ser necessário diferenciar uma ação educativa que seja capaz de
contribuir com a transformação de uma realidade que, historicamente, se coloca
em uma grave crise socioambiental.
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De acordo com Barbier (1997), cabe à educação ambiental considerar os
problemas relativos a todas as formas de vida, a fim de compreender a
complexidade dos sistemas ambientais e da multirreferencialidade da ação
educativa. Para tal, segundo Morin (2000), mune-se da ideia de mudança de
valores e do pensar ainda dominantes, pois fazer educação ambiental sugere fazê-
la nos moldes de uma filosofia e pedagogia da práxis, unindo ação-reflexão, de
maneira a construir outras lógicas societais, numa profunda busca do
redimensionamento da ecologia em uma nova lógica da vida.
A finalidade dessa educação para o ambiente foi determinada pela
UNESCO, logo após a Conferência de Belgrado em 1975 e consiste em "formar
uma população mundial consciente e preocupada com o ambiente e com os
problemas com ele relacionados, uma população que tenha conhecimento,
competências, estado de espírito, motivações e sentido de empenhamento que lhe
permitam trabalhar individualmente e coletivamente para resolver os problemas
atuais, e para impedir que eles se repitam”. (UNESCO, 1975, p. 2).
Assim, conforme Suvé (2005), a Educação Ambiental tem uma importante
função a desempenhar no sentido de induzir dinâmicas sociais, de início na
comunidade local e, posteriormente, em redes mais amplas de solidariedade,
promovendo a abordagem colaborativa e crítica das realidades socioambientais e
uma compreensão autônoma e criativa dos problemas que se apresentam e das
soluções possíveis para eles.
Todavia, nem todos pensam e fazem educação ambiental dessa maneira.
Para muitos ela fica apenas no modismo8, sendo subjugada como resultado da
visão fragmentada do mundo não alimentada pelo espírito, pois visão de mundo é
uma janela conceitual, através da qual nós percebemos e interpretamos a realidade
do mundo, tanto para compreendê-la como para transformá-la. Nesse contexto, a
ecologia espiritual assume um importante papel para a compreensão e para a
realização da educação ambiental, pois conduz a um nível de consciência ecológica
que faz com que os seres humanos reinterpretem-se enquanto parte de um todo.
Sob esse ponto de vista
a ação, uma vez recolocada em sua direção verdadeira, reduz a distância
e a estranheza de nossa relação com a ordem das coisas, o afastamento
do organismo individual e coletivo em face dessa ordem, apreendida
unicamente em termos abstratos, marcada pela segregação, em função
das qualidades primárias espaço, tempo, leis, medidas, quantidades.
Estabelece a possibilidade duma familiaridade, enquanto as qualidades
secundárias, imediatas, do sensível, do percebido, do imaginário,
preenchem o vazio, mantido, do homem em relação ao seu universo.
Urge certamente a volta, não a volta à natureza e sim a volta dentro da
natureza. (MOSCOVICI, 1975, p. 71).
8A ecologia rasa é antropocêntrica, ou centralizada no ser humano. Ela vê os seres humanos como
situados acima ou fora da natureza, como a fonte de todos os valores, e atribui apenas um valor
instrumental, ou de “uso”, à natureza (CAPRA, 2006, P 25).
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CONSIDERAÇÕES
Longe de uma receita pronta ou de uma crítica às formas de Educação
Ambiental privilegiadas, este trabalho busca reunir novas perspectivas para a
reflexão da temática ambiental enquanto algo indissociável para o ser humano.
Almeja-se, contudo, contribuir para a construção de novas metodologias
educativas que estimulem a mente humana ao autoconhecimento e, assim, ao
respeito mútuo entre humanos e o mundo natural, a nós, intrínseco.
No tocante a todos os aspectos mencionados neste trabalho, fica implícito o
importante, e por que não urgente, papel da Ecologia Profunda enquanto diretriz a
ser inserida nas propostas de Educação Ambiental Complexa, que conduzam ao
desenvolvimento de atitudes sustentáveis, considerando todas as dimensões
abrigadas pelo conceito.
Dentro dessa perspectiva de ação, a Educação Ambiental Complexa vai além
da educação pela importância dos recursos naturais à sobrevivência dos seres
humanos. Busca promover a valorização da vida em todos os seus aspectos,
fomentando a internalização da biodiversidade (biológica, étnica, cultural), da
igualdade social, do simples direito à vida que todos os seres vivos possuem,
redirecionando os aspectos utilitaristas para a ideia de pertencimento a um
complexo vivo único, inseparável e indivisível do indivíduo e do coletivo, algo que
é externo, mas que também está dentro de nós e dos outros, o planeta terra,
GAIA9.
Dessa forma, para finalizar, utilizando as palavras de Arne Naess: o cuidado
flui naturalmente se o “eu” é ampliado e aprofundado de modo que a proteção da
natureza livre seja sentida e concebida como a proteção de nós mesmos” (ARNE
NAESS, citado por FOX, 1990, p. 217).
DEEP ECOLOGY: THE AWAKENING PROCESS TO A
COMPLEX ENVIRONMENTAL EDUCATION
Abstract
Facing the contemporary environmental crisis, the environmental education
emerges as a tool for coping and minimizing the impacts of human civilization on
natural resources. So, in most of the works, what is observed is the predominance
of environmental thinking, often devoid of ecosystem vision. The speech is limited
9 De acordo com Capra (2006), a visão romântica da natureza como um “grande todo
harmonioso”, na expressão de Goethe, levou alguns cientistas a estender sua busca de totalidade a
todo o planeta. Nesse sentido, consta em Capra (2006) que Goethe, em particular, sentia que a
percepção visual era a porta para o entendimento da forma orgânica. Na antiguidade, Gaia era o
nome dado à deusa terra, cultuada como divindade suprema na Grécia antiga. Na
contemporaneidade, de acordo com Lovelock (2006), a teoria de Gaia defende basicamente o
planeta terra como um sistema autorregulador que mantém o clima e a composição atmosférica
garantindo sua própria existência.
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to the need of preserving resources related to a distorted and uncritical
development. Little attention is given to the dimensions of sustainability, the
environment being treated as a part of the individual, mere outer portion of the
human body. This perspective demonstrates the fragility of this speech to an
effective awareness by revealing the disorder of the actions that occur within a
deterministic ecological process, with little attention to the educational sphere,
related to cognitive, ethical and cultural factors. Within these aspects, Complex
Environmental Education suggests self-knowledge, awareness and environmental
action in pursuit of the development that considers the integral quality of life,
rather than the economic variable. In this sense, the deep ecology booster acts as
an agent in the process of awakening to environmental education that is self-
sustainability and so complex, because it helps the human perception on the
integrative and dependent view of all beings, unifying them for the life.
Key-words: Ecology, Perception, Development
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